Trigésimo dia: Conselhos

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A verdade é um espelho que caiu do céu e fragmentou-se em centenas de milhares de pedacinhos.

Ao longo da história da humanidade, cada pessoa que achava um desses pedaços reconhecia nele a essência inconfundível da verdade, e acreditava ter achado a verdade inteira.

A questão é que, sendo pedaço, ele não podia, não tinha como, revelar a verdade como um todo. E, sendo espelho, ele sempre refletia, desse ou daquele modo, a face de quem o descobriu.

Não me sinto apta a dar conselhos. Muito menos conselhos druídicos. Mas se eu puder dar apenas algumas sugestões, serão essas:

– Sempre que encontrar uma verdade, compreenda que ela é apenas um fragmento. Procure outros fragmentos, pois quanto mais fragmentos encontrar, mais próximo estará da verdade inteira. Mas mesmo ao encontrar muitos fragmentos, compreenda que a natureza original da verdade é de espelho – a verdade que você encontrar, por mais completa que lhe pareça, terá a face que você vê apenas para você. Outra pessoa que a vir verá algo de diferente, algo mais a seu modo. Ou seja, a verdade é também de natureza muito pessoal. E respeite outras verdades, essas encontradas por outras pessoas. Elas não são melhores nem piores do que as suas. Dê uma chance a elas, sempre há algo que se salve. Mantenha o coração e a mente abertos a outras possibilidades, elas enriquecem.

– Mantenha-se em movimento. Nunca abrace uma certeza. Não deixe que sua mente, sua vida e suas crenças imobilizem-se no mesmo lugar, do mesmo jeito, presas ao mesmo modo. A natureza muda todos os anos, e aferrar-se e imobilizar-se, enrijecer-se, fechar-se, é antinatural. E não compreendo que alguém que queira seguir uma religião como o Druidismo vá contra a natureza.

– Escreva 30 Dias Druídicos (e os termine). Mesmo que seja do seu jeito e no seu tempo, mesmo que você mude alguns temas ou os faça de outro modo, e mesmo que leve mais (ou bem mais) do que 30 dias. Faz uma enorme diferença, que só é sentida por quem os escreveu. (:

Obrigada por me acompanharem até aqui. Go raibh maith agat. E até a próxima!

Vigésimo nono dia: Futuro

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Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O druidismo está vivendo um momento muito interessante agora, a meu ver. Lembro de uma época em que druidismo era um tema escasso em terras brazucas, um nicho onde um grupo pequeno em que todos se conheciam trabalhava principalmente para traduzir e compartilhar textos que na época estavam disponíveis apenas em inglês. E olhe lá! Dessa época tenho ainda uma pasta repleta de arquivos *.txt copiados de emails trocados na finada (e saudosa) Creideamh, materiais da ODB, criada pelo Robert Kaucher, e muitos textos impressos desta época e de épocas posteriores, organizados em pastas ou encadernados em espiral. Dentre essas relíquias antigas tenho até mesmo uma cópia em xerox do Apple Branch com uma mensagem do Endovelicon, que me foi passada generosamente pela Fê.

De lá para cá as coisas foram mudando, e até certo ponto até acompanhei as mudanças. Lembro de quando começou-se a falar de Reconstrucionismo Celta, e lembro quando havia duas comunidades muito boas sobre o assunto no orkut. Lembro de quando nos reunimos para traduzir o FAQ, e de quando um dos melhores sites em português sobre o assunto era o da Luciana Cavalcanti, o Três Mundos. Também me lembro que foi nesses espaços virtuais que conheci algumas das pessoas que até hoje são algumas das mais importantes em minha vida, meu clã, quando publicaram o anúncio de um grupo de estudos de gaeilge aqui no Rio de Janeiro.

Depois disso, como Oisín ao retirar-se para Tír na nÓg, afastei-me desse mundo, dessa grande comunidade virtual, e por razões puramente pessoais. A essa altura eu já estava com o meu clã, e nossas práticas e trocas e debates saciaram minha necessidade de compartilhar conhecimento e ideias, enquanto a vida me empurrava através de inúmeros processos, tão mundanos quanto cruciais (faculdade, estágio, casamento, trabalho…)

Mas um dia, é chegada a hora de voltar. Sentimos uma saudade, que começa como uma cosquinha lá dentro, mas que aos poucos vai se avolumando e tornando-se um desejo, para então converter-se em prioridade. O primeiro passo disso, na minha vida, acabou sendo justamente esses 30 dias, iniciados no finzinho do ano passado, que me conduziram a uma série de reflexões e percepções, tanto a respeito daqueles ensinamentos lá do passado, quanto os que fazem parte do presente que, assim como Oisín ao retornar à Irlanda e conversar com São Patrício, são para mim uma grande novidade.

Acho que minha experiência está sendo muito mais feliz do que a de Oisín, no entanto. Encontrei alguns dos meus antigos colegas de troca e debate crescidos, transformados em grandes homens e mulheres de conhecimento, o exato oposto dos homens baixos e fracos que Oisín encontrou. Encontrei novas teorias enriquecedoras, e novos membros, tantas novas árvores desconhecidas e interessantes, novos grupos e novos conceitos, novas percepções. Encontrei novas perspectivas, novas perguntas e novas respostas, novas possibilidades. Fiquei até um pouco perdida, e tenho consciência de que essa sensação, de desorientação, ainda perdurará por um tempo, até que eu consiga fincar ambos os pés nesse chão e minha mente adaptar-se a tudo o que ocorreu na minha ausência, um pouco como o corpo de Oisín precisou adaptar-se ao tempo passado na Irlanda durante aqueles 300 anos.

Não há futuro sem passado ou presente, por isso acabei falando de ambos (e contei mais uma vez com a enorme paciência de quem consegue ler o que escrevo). Mas uma parte da razão pela qual falei tanto do passado e do presente é que é muito difícil, para mim, falar do futuro. Sou nostálgica e saudosista por natureza, e sou inconstante demais para conseguir criar para mim um planejamento claro sequer para o jantar de amanhã. Futuro era um dos temas que desde o princípio eu sabia que me daria trabalho, porque o futuro para mim é um mistério dentro de um mistério.

Mas acredito que existe uma progressão lógica, e ela governa nosso mundo. E, relacionando o passado que deixei quando saí “em retiro” e o presente que encontrei no meu retorno, imagino que talvez seja lógico que uma relação semelhante possa estabelecer-se entre o presente e o futuro da nossa religião… e, bem, se isso for fato, o futuro me parece repleto de excelentes possibilidades.

Vigésimo oitavo dia: Caminho

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Ainda tínhamos vários dias de viagem pela frente mas, dentro de mim, aquele era o fim do caminho.

Descemos do ônibus e subimos uma estradinha, onde fomos orientados a aguardar atrás de um portão de madeira. Dali já podíamos visualizar nosso objetivo, imponente, grandioso e, como quase tudo naquela ilha maravilhosa, enriquecido dos mais inacreditáveis tons de verde.

Brú na Bóinne, era o nome daquele cairn, o Palácio do Boyne. Também conhecido como Newgrange.

Quando finalmente o portão foi aberto e pudemos nos aproximar, senti uma emoção imensurável. Foi bem ali, minha mente eufórica me informava, que Daghda teria morado. Aquele era o palácio que Oengus, O Jovem, teria tomado como seu após um dos seus espertos ardis. E, mitos à parte, aquele era obviamente solo sagrado. Dava para se sentir nos ossos.

Aquele era apenas o fim de um caminho, para mim. Um caminho de proporções espirituais indescritíveis, que começara dias antes à beira do poço de Bríd em Kildare e torcera-se e curvara-se por diversos quilômetros de estradas que cruzavam campos verdejantes entrecruzados de baixos muros de pedra e pontilhados de ovelhas, até afinal nos trazer até ali. Tantas coisas meus olhos viram incrédulos, meus dedos tocaram trêmulos e meu coração sentiu com tanta força.

Corvos que voavam aos montes em um cemitério antigo, falando conosco com suas vozes roucas e nos observando atentamente. Rochas vulcânicas extraordinárias que espraiavam-se em todas as direções formando desenhos fantásticos entremeados de folhagens verdes e enfeitadas com dólmens de pedra surpreendentemente morna.  Cairns ancestrais pontilhando uma paisagem verdejante, simultaneamente túmulos sagrados e moradas míticas dos deuses, com seus corredores e câmaras internas dispostas em cruz e suas presenças silenciosas a anunciar-se aos sentidos não-físicos. Uma planície onde teria ocorrido uma batalha mitológica, Moytura, nos encarando de uma paisagem ampla e tão bela lá embaixo, com um lago cintilante a adorná-la e incontáveis tons de verde. A colina onde estivera o próprio centro do Ulster, verdejante e altiva, ainda com resquícios da paliçada que antes a adornara. A pedra onde o bravo herói Cu Chulainn teria amarrado-se vislumbrada à distância, com um corvo nela empoleirado como um significativo vigia e uma manada de vacas pondo-se entre nós e a pedra, como se para impedir nosso avanço. Uma pedra ancestral que teria sido trazida de Fálias em tempos míticos, repousando no topo de uma colina verde como um marco sagrado. E afinal esse cairn monumental, erguendo-se diante de nós como uma miragem.

Esse caminho externo, percorrido com pés e rodas de carro, foi crucial para alimentar o outro caminho, esse interno, que sempre esteve lá. Cada colina, cada cairn, cada lago e rio, cada pedra sagrada, encontrava surpreendente eco nas colinas, rios, lagos, pedras e cairns que já estavam aqui dentro, a um ponto em que a visita parecia-se muito mais com um reencontro.

Tocando reverentemente e traçando com o dedo as ancestrais espirais gravadas na pedra que guarda a entrada do imponente monumento que é Newgrange, percebi de repente que esse caminho espiritual que me escolheu se parece bastante com as voltas e curvas daqueles veios de pedra.

Cada um o percorre só, pois por mais que eu tenha agarrado com força a mão da fadinha do meu clã e tentado passar através desse toque aquele sentimento que era grande demais para colocar em palavras, os pés que atravessaram o corredor estreito até a alta câmara interna eram meus, e ninguém poderia jamais movê-los por mim. Mas também caminhamos juntos, pois é impossível postar-se dentro da câmara, e observar as pedras arranjadas em espirais progressivamente menores que formam o teto e não pensar em todos aqueles que vieram antes de mim. Como não pensar nas mãos cheias de perícia que ergueram aquelas pedras e as puseram em seus lugares? Como não pensar nos rostos reverentes daqueles que andaram por aquele chão, depositando naqueles três recantos semelhantes a altares as cinzas de seus mortos? Como não pensar nas vozes daqueles que observaram a grandiosidade daquele prédio em outros tempos, e sobre ele contaram tantas histórias, poderosas o suficiente para atravessar séculos incontáveis e chegar ao meu conhecimento?

Como não pensar em todos os outros como eu, como meus companheiros daquela jornada, que aguardaram ansiosos pela vez de entrar, e encontraram lá dentro um significado tão profundo que aquele caminho já não parecia mais feito de madeira, e depois grama, e depois pedra fria e ancestral:  aquele caminho parecia apenas continuação e eco daquele outro, que todos os que seguem a nossa religião já têm caminhado, antes mesmo de compreender que toda a sua vida fluiu para ele e através dele, como fluem as águas caudalosas do rio Boyne.

Vigésimo sétimo dia: Um Dia Druídico

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Novembro de 2012 – Bealtaine.

A chuva caía lá fora, batendo nas janelas. Aqui dentro estava seco, fragrante e quente, por causa do fogo que fora aceso, e do incenso que queimava. As mesmas duas frases vinham sendo repetidas – cantadas – há bastante tempo quando fechei os olhos e vi, dentro das pálpebras, o mar. Ele era uma faixa imensa, profunda, azul e eterna, com uma coroa de espumas brancas sob um céu apenas ligeiramente tempestuoso. Chuva fina fingia que caía na minha pele, muito frágil e quase inexistente, mais uma bruma do que chuva de fato. Sal tocava meus lábios, e um vento frio, cortante e úmido lançava meus cabelos para trás, impedindo que o capuz do meu casaco permanecesse em seu lugar.

O calor levemente doloroso no meu ventre e a dificuldade de encontrar posição adequada faziam com que a visão da praia fria e úmida piscasse um pouco, hesitasse, quisesse sumir e ser substituída pela concreta, seca, quente e fragrante realidade física. Perseverando, mantive a visão clara na minha mente, enquanto levantava do círculo em que estávamos sentados e caminhava até o mar. Aos meus pés, um pequeno barquinho de papel aninhado num cetim azul profundo. Mas eu o visualizava imenso, um enorme navio de madeira a cortar as brumas maritmas, ondas levantando-se à sua passagem. De dentro dele veio um homem alto, sério, de olhar severo e competente. Ele vestia um manto branco e verde, e pisou na areia me olhando com uma atenção tão concentrada que parecia perfurar meu corpo e me encarar a alma. Surpresa, pois não esperava que fosse ele a chegar, pedi desculpas pelo meu desassossego e recusa imediatos, e abri meu coração para dizer seu nome e dar-lhe as boas vindas.

Mais tarde, tirei o papelzinho sorteado, e nele dizia Bealtaine. Achei curioso, pois há exatamente um ano, quando postei-me diante do mar escuro sob um céu estrelado, fora sua contraparte escura que surgira em meus dedos, Samhain.

O papel sorteado é um compromisso, uma responsabilidade, de organizar um dos oito rituais do ano. Para o Samhain deste ano, me preparei por seis meses inteiros, lendo e relendo, escrevendo e reescrevendo, buscando determinados objetos que se fariam necessários para realizar o que eu tinha em mente. Cuidei de cada detalhe com todo o zelo que me foi possível, pois eu sabia que Samhain é um grande marco na nossa Roda, o Ano Novo, e o início da Fase Escura. Todos os ritos são importantes, é lógico, mas a meu ver Samhain e sua contraparte clara, Bealtaine, destacam-se como cruciais. Na minha vida, é em maio e em novembro que constantemente as maiores mudanças internas são orquestradas.

Falta um ano para o Bealtaine, mas minha mente já volta-se para as possibilidades. Já começo a pesquisar e ler, buscar e sentir, imaginar e visualizar. Sei que na época, essa sementinha dentro do meu corpo já vai ter crescido e virado gente, exemplo físico, direto e concreto de todo o ciclo de vida, morte e renascimento que a natureza inteira encena todos os anos. Sei que ele ou ela vai ser meu sol e em torno dele girarão todos os meus planetas. E sei que vou me inspirar nesse sentimento de frutificação, expansão, luz e felicidade que sinto agora, na vida que brota e cresce, na luz que aumenta, no solo fértil que não desaponta.

Sempre amei a Fase Clara do ano, e hoje amo mais ainda. Por toda a promessa que ela contém, e por todas as delícias que ela no fim das contas de fato nos entrega, pois a promessa sempre se cumpre.

A proposta era falar sobre um dia druídico, mas todos os dias são druídicos, eles precisam ser. Ao invés, preferi falar dos ciclos e das possibilidades, e completar um raciocínio que foi dos mais relevantes, na minha opinião, de todos os que consegui refletir e meditar a respeito aqui nessa página, enquanto escrevia sobre esses 30 dias druídicos.

Era para falar de um dia só, mas falei de dois, marcos de um ciclo infinito. Com um pouco de um que veio antes, para explicar a origem, e a promessa de um que virá depois, porque a Roda nunca para de girar.

Vigésimo sexto dia: Distrações

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Passaram-se muitos meses desde que postei o último dia druídico. O último havia sido esse exato tema: Distrações. Mas achei por bem deletá-lo e recomeçar por ele, porque na época em que o escrevi, estava tão distraída com tantas outras coisas que ele não saiu exatamente como deveria. Saiu apenas como era possível que saísse, e assim que acabei de lê-lo bem soube: não era o ideal.

Talvez tenha sido meu Transtorno Obsessivo-Compulsivo o que me fez dar as costas ao projeto como um todo após ficar insatisfeita com um post (tenho dessas). Talvez tenha mesmo sido falta de tempo, afinal, pois depois daquilo abracei um novo cargo no emprego, novas responsabilidades, meu pai adoeceu gravemente, fiz uma viagem importante cujos preparativos me consumiram, engravidei e agora tenho essa vidinha dentro de mim que aos poucos está se tornando o centro do meu universo, porque eu sei muito bem que a mera existência dele ou dela muda tudo… E mudança sempre nos tira do eixo, abala nossas estruturas, muda nosso foco, altera nossas metas. E a gente se distrai.

Mas levando em consideração que ‘Distrações’ é o mais adequado dos temas, aqui retorno. Dessa vez, para terminar. Espero.

Não, sério.

É muito difícil vivermos concentrados, com o tanto que temos que fazer. Trabalho e contas a pagar, e estudos, e compras, e pessoas, e festas, e encontros, e viagens, e listas intermináveis de tarefas… algumas dessas coisas acabam tendo precedência diante de outras, dependendo sempre da nossa eterna ciranda de horas, dias e meses, com tantos números a fatiar o tempo, separando-o em pedaços fundamentais e preciosos que precisam ser utilizados com cuidado e jamais desperdiçados. E tanta coisa acaba caindo na categoria ‘desperdício’… e nem percebemos. Nem nos damos conta.

Vamos fazer uma brincadeira. Pegue um papel e separe em quatro colunas: Família/Pessoal, Trabalho/Estudos, Amigos/Social, e por fim Religiosidade. Agora o trabalho vai ser de memória. Pense com força em todos os seus projetos e tarefas, tanto os em progresso quanto os que ficaram pelo caminho, coisas que você tem a obrigação ou que gostaria de fazer, e liste-os nas colunas adequadas. Falei que são projetos, mas podem ser também ser chamadas de metas, ou promessas, ou filosofias ainda não aplicadas à vida conforme você gostaria. Podem ser chamadas de resoluções, ou objetivos. Tanto faz. Deu pra entender do que estou falando, né?

As listas ficaram grandes? As minhas ficaram enormes, intermináveis! E quanto maior a lista, maior o desespero? Não, nããão! Quanto maior a lista, maior a felicidade, por ter-se uma vida tão cheia, tão completa e, consequentemente, tão bela. Tão criativa e múltipla. Porque a beleza sempre residiu nisso, a meu ver: multiplicidade, mudança, variações.

Mas vou ser sincera logo de cara: não vai dar pra fazer a lista toda. Sorry. Primeiro porque o dia tem só 24 horas e tem coisas que você não botou na lista, tipo a faxina do banheiro e as compras de supermercado, que vão precisar ser feitas também. E embora sejam bem menos importantes que seus planos e seus sonhos, essas coisas terão que ser feitas primeiro. Aquela velha relação importante x urgente. E segundo… porque bem, já estabelecemos que a lista leva tempo para ser concluída. E você vai mudar bastante, enquanto pessoa, muito antes de ter a chance de terminá-la. No meio do caminho, se você achar esse papel um dia, vai notar que abandonou várias dessas metas, porque encontrou outros jeitos (melhores ou não) de chegar lá. E isso é normal.

Daí como faz? Por isso resolvi não falar de Distrações, na verdade. Vou falar de outra coisa, mais importante: Prioridades.

Sem prioridades a gente não faz nada. Elas são como estrelas-guia, nortes de ação. Isso não é blablablá teórico autoajuda não, estou falando sério. Sabe essa multiplicidade que é muito linda na vida? Se não tomarmos cuidado, acabamos vítimas dela. Talentos e interesses, desejos e vontades, obrigações e compromissos… se deixarmos, viram cordas nos puxando em todas as direções, e não nos deixam terminar nada! Nem mesmo um objetivo simples, como fazer um post por dia sobre um assunto que muito amamos por 30 dias.

Voltando àquelas quatro colunas repletas de propósitos. Você vai pegar uma caneta vermelha, bem chamativa, e vai sublinhar todos os itens que você considera mutuamente importantes E urgentes. Tente se manter em no máximo dois itens por coluna, porque essa parece ser a grande chave das prioridades: elas precisam ser poucas. No fim, você deve chegar a umas 5, 6 prioridades fundamentais. São essas coisas que você vai fazer primeiro, são essas coisas que você vai dar a maior fatia do seu tempo. Esqueça o resto, por enquanto, e só volte às listas quando tiver concluído suas prioridades, ou ao menos as avançado satisfatoriamente dentro do que você gostaria. E quando voltar, vai ser para eleger novas prioridades.

Na verdade, você não precisa fazer isso, é claro. Só se quiser. Mas eu fiz, e aqui estou eu. Marquei com uma linha vermelha super bonita os 30 dias druídicos, tendo-os como um símbolo da minha determinação em voltar a essa religiosidade comunitária ativa que a web representa. Debater, pesquisar, contribuir, ajudar, receber ajuda, trocar… eram coisas que eu fazia desde o começo, parte constante dessa busca religiosa tão incomum que o druidismo representa, em que nada está pronto, tudo tem que ser construído, sentido, buscado e encontrado. E essa comunidade mais ampla, aqui na internet, sempre foi uma das faces da minha religiosidade, sendo a outra é claro a prática pessoal, interna, cotidiana, que nunca abandonei e que sempre estará lá no topo das minhas prioridades, tão firmemente fincada ali que já nem preciso mencioná-la em lista nenhuma.

Pois bem, estou de volta. Senti saudades. (:

Vigésimo quinto dia: Pisando Leve

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No meu entender, “pisar leve” tem a ver com “não deixar marcas”. Me faz pensar imediatamente em redução de peso ou impacto, me faz pensar no elfo Legolas saltando sobre a neve enquanto os demais membros da sociedade cavavam seu caminho, afundados nela.

Bem, filosoficamente falando, na minha opinião não deixar marcas é impossível. Tudo o que fazemos ou dizemos tem algum impacto, e deixa alguma marca no mundo e naqueles que conosco convivem. Um bom exemplo, para mim, seria justamente esses 30 Dias Druídicos. Endovelicon começou a corrente, e teve tempo de terminar os 30 dele antes que outra pessoa começasse. E então, Wallace começou. E eu comecei, e Rodrigo começou, e então outros também começaram. Foi mais ou menos como acontece quando uma folha seca cai na superfície de um lago de águas paradas: criou-se uma onda, pequena a princípio, mas que foi ampliando-se e ampliando-se, até tomar o lago inteiro. “Nossa floresta cobrirá o planeta”, eu disse ao Endovelicon em um comentário, mas é assim mesmo que as coisas funcionam – cada árvore produz muitos frutos e cada fruto contem em si a semente que promete uma nova árvore.

Ainda falando dos 30 Dias Druídicos, agora falarei sobre o específico, sobre este blog, estes 30 dias que eu estou fazendo. Para começar, só consigo falar de mim mesma, da minha experiência e de como o tema aplica (se é que se aplica) na minha vida cotidiana. Vários motivos. Primeiro, porque para mim religião é algo que você vive, não algo que você tem. Então, se você não consegue traçar paralelo entre ela e a sua vida, algo não está funcionando como deveria. Segundo, porque não me sinto segura para fazer afirmativas generalizadas, dar conselhos ou instruções, ou expressar verdades: eu só posso falar do que eu vi, vivi ou senti, do conhecimento que fui testemunha, e tentar explicar como foi que ele me chegou. Mais do que isso estaria além do meu alcance.

É que (como já disse lá no primeiro post deste blog), eu não me considero Druida (e nem acho que essa palavra tenha lugar no nosso contexto social), e não me considero Barda, embora goste de escrever e estude lá meu violino. Também não me considero Vate, por mais que jogue meu tarot e faça minhas magias ocasionais. Em todos esses grandes arquétipos, sempre me encaixei no aurrad, no membro da tribo – aquela pessoa comum, simples, que faz a sua parte, que produz, compartilha e participa. Sou amadora e experimental. Por profissão, posso ser considerada artesã ou professora. E é isso aí. Não tenho pompa nem título nem lugar de honra. Estou ali com o povão, na meiúca da pirâmide, oferecendo humildemente minha parte do trabalho.

Mas ainda assim, o que faço cria impacto. Deixa marca. É impossível que não deixe.

Desde que comecei os 30 Dias, tenho visto pessoas variadas, de variadas esferas de convivência comigo, ex-colegas de trabalho, de rpg, de faculdade, escola, ex-alunos… virem comentar comigo a respeito das coisas que escrevo. Comentam aqui no blog, e às vezes no facebook. Mas principalmente, comentam pessoalmente ou no msn. Pessoas variadas, algumas das quais nem sabiam meu caminho espiritual (sou discreta quanto a isso normalmente), que vem comentar coisas que eu escrevo, concordando, discordando ou pedindo mais informações. Uma amiga me fez o coração inchar de felicidade quando disse que, lendo o que eu escrevi, ela compreendeu certas coisas na mente dela, que meus textos a ajudaram. E eu nem ao menos divulgo tanto assim! Eu posto aqui e vou ali no facebook colar o link, e fica por isso mesmo. Mas, mesmo assim, causa impacto. Marca.

Tudo o que fazemos marca algo ou alguém, eu tinha uma professora na Faculdade de Educação que sempre falava disso. Temos uma grande responsabilidade ao lidar com as pessoas, porque nossas palavras e ações sempre geram reações.

Pisando leve para mim não tem como se relacionar a não deixar marca, porque isso seria impossível – mas tem sim tudo a ver com que tipo de marca vamos deixar. Precisamos sempre pensar nas reações às nossas ações. Precisamos pesar palavras, escutar nossa própria voz, meditar a respeito dos nossos atos. Precisamos entender que algumas das repercussões daquilo o que fazemos ou falamos às vezes só podem ser percebidas daqui a vários anos.

Citando As Crônicas de Gelo e Fogo (porque estou viciada nesse livro): mesmo a menor das pessoas pode projetar uma longa sombra.

Vigésimo quarto dia: Trabalho

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Nas portas de Tara conta-se que Lugh foi barrado: apenas um homem de cada profissão ou habilidade poderia ser aceito dentro dos muros da cidade. Lugh apresentou-se como guerreiro, campeão, ferreiro, bronzista, carpinteiro, bardo,… e afinal foi aceito como Samhildánach, “o de muitas habilidades”.

Antes de mais nada eu gostaria de apontar que este post está atrasado uns três dias… ironicamente, por causa do trabalho. É que, nesta semana e na próxima, estou passando por um treinamento um tanto puxado por lá. Embora eu esteja amando o treinamento, ele é mentalmente cansativo, por consistir num conteúdo muito grande a ser assimilado em pouco tempo, sem contar que o tempo de treinamento de fato consome muitas horas. Minha jornada de trabalho tem sido em média de dez ou onze horas por dia. Aí é perfeitamente natural que fique difícil sentar aqui na frente do computador e inspirar-me o bastante para escrever o que quer que seja… mas, ao mesmo tempo, é um momento particularmente perfeito para falar-se de trabalho. Afinal, este tem consumido a maior parte da minha vida.

Como já mencionei aqui, trabalho como professora em um curso de inglês. É um trabalho muito significativo e do qual tiro muita realização pessoal. E, ultimamente, bastante realização profissional, também. Mas vamos por partes.

Vim parar nesse papel de professora de inglês quase que ao acaso: minha formação oficial é Licenciatura em Educação Artística, e a única razão pela qual sequer tentei enviar meu currículo para um curso de inglês foi uma mistura curiosa de falta de opção (na época, meados de setembro, era impossível conseguir trabalho em uma escola comum) e de segurança adquirida com experiência (é que por acaso meu último trabalho tinha sido dando aula de artes em inglês, numa escola bilingue). Escolhi o curso onde trabalharia também muito aleatoriamente: achei que a relação pagamento x horário parecia melhor do que a de um outro curso que também me chamou após a entrevista.

Mas estou apaixonada. Apaixonada pelo método, pela empresa, pelas pessoas, pela filosofia… por tudo. Tanto no micro quanto no macro, tudo lá bate com minhas crenças e ideais, encaixa e funciona. É tão bom que me faz me perguntar se não tem nenhuma pegadinha ali… porque ainda por cima, tenho obtido lá o que todo profissional mais sonha obter: reconhecimento. E é precisamente por conta desse tal de reconhecimento que minha vida tem sido um caos e um caos continuará sendo pelos próximos onze dias… é que fui convidada para ser coordenadora do meu branch. E, por isso, preciso de um extenso treinamento.

Para os Celtas (bem como para vários outros povos, antigos e atuais), o trabalho não é simplesmente uma atividade realizada para a subsistência – o trabalho, a função que exercemos no mundo… é o que nos define.

Sou professora. Antes de mais nada e depois de tudo. Eu me sinto professora, desde a primeira vez em que pisei em uma sala de aula, olhei em volta e vi os rostos dos alunos voltados na minha direção. Professora de artes, professora de inglês, tanto faz. Ensinar é o que dá sentido à minha vida, e acho que sou abençoada de poder exercer a profissão da minha alma.

Mas existem outras funções com as quais me identifico… por exemplo, desde pequena sonhei ser escritora. E amo escrever, e estou sempre escrevendo. Seja um texto para este blog, seja um conto, seja uma ação de rpg play-by-forum, sempre invento algo para transformar em letras e palavras. Quando deixo de escrever por um dia, sinto uma falta imensa, e creio que seria muito feliz como escritora. Mas, até o presente momento, não foi para este caminho que a vida me levou…

No clã minha função também é bem definida: sou artesã. Desenho, pinto, tranço, costuro, modelo. E, quando não estou produzindo, estou ajudando a produzir, ou ao menos dando sugestões e oferecendo estratégias de acordo com a minha experiência como estudante de artes plásticas. Sempre me vejo sentada a um canto de pincel, durepoxi ou barbante na mão, e essa visão me dá uma sensação boa, de propósito, de significar algo, de ser alguém. É a atividade, me definindo. Você é o que você faz.

Ter um lugar no mundo. Sentir que suas ações geram reações positivas, desejáveis. Ter um significado, um propósito. Ser uma peça no grande quebra-cabeça das funções.

Possuir um trabalho, uma finalidade, uma atividade, uma habilidade é, afinal de contas, ser alguém. Pergunte só a Lugh, o Samhildánach.

Vigésimo terceiro dia: Comunidade

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Hoje, após a aula, e após minha descrição de como ontem depois de sair do trabalho tarde da noite ainda fui beber com os amigos no pub e que por isso dormi pouco mas, como sou ligada no 220, fui trabalhar cheia de energia mesmo assim, um aluno disse que essa não era a impressão que ele tinha de mim. Ele disse que, pelo meu comportamento em sala de aula e pelo meu modo de me vestir, eu parecia calma, tranquila, e até religiosa. Eu ri e retruquei “ah, mas eu sou muito religiosa”, e ficou por isso mesmo. Mas só depois do que eu disse, percebi que não foi bem o que ele quis dizer. Ele olhava para a minha saia longa quando falou, e me dei conta que ele provavelmente tinha dado a entender que achava que eu talvez fosse evangélica, sei lá. (Me senti um cadim ultrajada e nunca mais uso a exata combinação de peças de roupa que usei hoje, mas isso é outro papo).

Não gosto de falar de religião, a verdade é essa. Normalmente, quando desconhecidos perguntam minha religião, eu desconverso. Digo, na lata, que não gosto de falar de religião, desvio o assunto e convenço meu interlocutor de deixar para lá. Gosto de conversar de religião com pessoas próximas, que considero amigas, e, de preferência, que compartilhem minhas crenças. É que é muito cansativo discutir com aqueles que não compartilham.

Certa vez uma mulher começou a gritar comigo num salão de cabeleireiros porque eu comentei que não sou cristã (e olha que nem cheguei perto de especificar como ou porque). Mas essa situação, apesar de desagradável, foi bastante insignificante. Significativo mesmo foi o comentário que um amigo meu, pagão, fez, quando relatei o ocorrido no facebook: ele disse que cair num silêncio envergonhado diante desse tipo de coisa é trair a causa. Ele não usou exatamente essas palavras, mas foi como a opinião dele chegou ao meu entendimento – nossa religião é bastante desconhecida. Somos minoria, em um mundo onde infelizmente a intolerância religiosa (e desrespeito às diferenças em geral) é a regra, não a exceção. Se nós nos fechamos, silenciamos, mantemos silêncio sobre quem somos, sobre nossa existência e nosso direito de existir e exercer nossas práticas e nossa fé conforme desejamos… talvez nunca tenhamos um lugar nesse vasto mundo intolerante.

Sei lá. Nunca me considerei uma ativista. Por mais que eu esteja ao lado de uma causa, meu caminho de escolha nunca foi o de militante, e sim de consciente. Sou mais aquela que lê, informa-se e procura compreender e conscientizar-se para os problemas e questões, para depois divulgar boca a ouvido para os mais chegados, despertando nesse círculo mais próximo essa mesma conscientização. Minha postura religiosa acaba sendo mais ou menos a mesma… mas cheguei a um ponto em que questiono, honestamente, essa postura.

Há um tempo atrás, após conhecer pela internet um casal composto por um FTM e uma genderqueer, tive minha consciência despertada para a questão de gênero. Quem me conhece sabe o quanto andei obcecada com isso, lendo a respeito das dores, dificuldades e características próprias do caminho daqueles que não se encaixam nos rótulos estabelecidos de “macho” e “fêmea”, diferenciados biologicamente e determinados pela sociedade. Minha sensação, lendo manifestos e depoimentos, foi de que minha mente tinha sido aberta, como um quarto muito tempo fechado é aberto para a entrada do ar puro e da luz do sol. Compreendi muitas coisas, percebi tantas outras, mudei toda a minha percepção de gênero…

Entre tudo o que li, uma das coisas que mais me marcou foi um artigo que falava a respeito da militância transgender. Ao contrário do movimento gay, que cresce, aparece, tem cada vez mais voz, mais defensores, com paradas e propaganda, e sites… o movimento transgender é pequeno e pouco expressivo, com militantes que facilmente abandonam a luta: é que, via de regra, os transgender mantem-se ativos no movimento apenas enquanto não conseguem ter seu gênero legalmente modificado. Depois que conseguem o que queriam e sua aparência física coincide completamente com sua identidade de gênero, eles normalmente desaparecem do movimento… vão viver suas vidas como homens e mulheres comuns, pois não querem mais ser reconhecidos como transgender – querem ser simplesmente “pessoas normais”, mais um na multidão, trabalhando, estudando e construindo família.

Por que estou falando disso tudo? Bom, porque embora atualmente tenhamos um número grande de pessoas que conhecem a causa gay e começam a compreendê-la e até a aceitá-la, pouquíssimas pessoas compreendem a causa transgender. Muita gente simplesmente fala que “é tudo travesti” e, mesmo aqueles que são esclarecidos e aceitam diversidade sexual, racial e religiosa, ainda torcem o nariz para aqueles que desejam mudar de sexo. E isso me faz me perguntar.

Muitas pessoas que seguem esse nosso caminho, o Druidismo, são extremamente discretas, assim como eu, preferindo não se expor, não esclarecer, não “sair do armário de vassouras”, conforme colocou Endovelicon. Só os Deuses sabem como foi difícil para mim (foi e está sendo) o esforço de me expor dessa forma ao fazer os 30 Dias Druídicos, porque, apesar dos muitos sentimentos positivos e percepções preciosas que me acometeram ao longo da estrada, não consigo deixar de me sentir mal até certo ponto, exposta, vulnerável… ah, é um sentimento difícil de explicar. Acho complicada a ideia de falar para as pessoas, como por exemplo para o meu aluno de hoje, que pensou que eu sou evangélica, que sigo uma coisa chamada Reconstrucionismo Celta (ou Druidismo, ou Aurrad, o nome pouco importa). Não quero que me olhem torto, criem concepções erradas ou gritem comigo como a mulher do salão de cabeleireiros. Quero, como os transgender bem-sucedidos, simplesmente seguir minha vida adiante, sem ser “marcada”, sem sofrer preconceito.

Mas de uns tempos para cá, durante os 30 Dias, e após observar e pensar, e entender e questionar… começo a achar que minha postura não está ajudando. Quer dizer, talvez esteja ajudando a mim, a me encaixar e não sofrer constrangimento… mas certamente não está ajudando à causa.

Quantos somos no Brasil? A comunidade de Reconstrucionismo no Orkut costumava ter uns 400-500 membros (se é que algo assim serve de parâmetro), e eu não sei dizer se todos esses eram de fato do RC ou do Druidismo, e não sei se o número, de lá para cá, cresceu ou diminuiu. Não sou boa com números e, mesmo que fosse, não disponho das ferramentas para medir algo assim. Mas… mesmo assim, somos poucos. Muito poucos, absolutamente. Se colocarmos a coisa em termos relativos, para a estatística nós sequer existimos.

É complexo. Não somos centralizados. E a maioria de nós prefere permanecer em silêncio. Não acho que erguer a voz deva ser algo exigido, ou até mesmo pedido. Ninguém deve dar o que não se sente pronto a dar. Mas… não posso deixar de pensar que, se já somos poucos e tantos de nós guardam silêncio… quem ouvirá a nossa voz?

(É claro que também não sei até que ponto nossa voz ser ouvida é assim tão importante, mas… isso já é outro questionamento. Como sempre, tenham paciência comigo. Ser incoerente está na minha essência.)

Vigésimo segundo dia: Família e Amigos

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Lugh, chamado Lamhfhada (“braço longo”), ou Samhildánach (“de muitas habilidades”), é um dos deuses irlandeses mais proeminentes, conhecidos e reverenciados. Não fugiu à minha observação (e de ninguém, de fato) o fato de que seu pai, Cian, é um Tuatha Dé Danann, e sua mãe, Ethniu filha de Balor, é uma Formorian. Fazendo-o descendente de ambos, os recém-chegados e os que lá já estavam. A habilidade e a matéria prima. A tribo e a terra. Mas o rito mais famoso sagrado a Lugh e que recebe seu nome é em honra a Tailtiu dos Fir Bolg, sua mãe adotiva. Laços familiares são claramente valorizados pelos celtas em tudo o que se encontra a respeito deles (o que mais esperar de um povo cujo núcleo é o clã?), mas a esta conta inclui-se facilmente aqueles adotivos, de consideração.

Isso posto, não falarei hoje a respeito da minha família de sangue, que muito valorizo e amo (e da qual já falei em vários posts). Falarei, ao invés, da adotiva, que para mim possui um valor semelhante.

Falarei do nosso clã.

Somos, aparentemente, um grupo de amigos como qualquer outro. Bebemos juntos, rimos juntos, discutimos longamente assuntos em comum, bebemos juntos, fazemos planos juntos, comemos juntos, bebemos juntos, gritamos uns com os outros, e fazemos provas de natação sem sentido quando bêbados (e já mencionei que bebemos juntos?). E, dentro do grupo, há aqueles que fazem também juntos oito rituais ao ano.

Para os olhos dos outros, somos um grupo de amigos apenas. É comum que associem automaticamente uns aos outros, porque nos encontramos com frequência, a um ponto em que já ocorreu de eu ser imensamente bem tratada por um completo desconhecido só porque ele sabe que sou desse grupo, e ele é amigo de alguém de lá (e isso já ocorreu várias vezes). Mas, aos olhos de quem está de fora, somos simplesmente amigos. Grupos de amigos, mesmo grupos tão unidos e com membros tão próximos, são até bem comuns. Mas, como disse Saint-Exupéry: o essencial é invisível aos olhos.

Somos um clã, uma família. Temos uma matriarca que nos mantém unidos, oferece a hospitalidade da sua casa, sendo anfitriã da maioria esmagadora de encontros, grandes e pequenos. Ela nos telefona para saber como estamos, lembra-se de aniversários, formaturas e casamentos, dá apoio em doenças e perdas. Ela é a nossa cola, inegavelmente, ou melhor dizendo, nosso coração, como a lareira de Bríd é o coração de um lar.

Seu marido é um bardo, de flauta hábil, riso fácil e grandes conhecimentos, confiável e disponível, sabendo quando brincar e beber até cair, e quando falar com seriedade e sensatez a respeito de qualquer assunto, em particular os referentes ao clã. Quando os dois viajaram por um mês ficamos todos perdidos. Como nos encontraríamos? Esquecemos como se usa o telefone e o e-mail. Foi como se um inverno europeu enchesse de neve as nossas portas, nos forçando à reclusão. Quando eles voltaram, o sol saiu e pudemos nos ver novamente.

Temos dois grandes guerreiros que, embora sejam muito diferentes em estatura física, são igualmente grandes no valor. Corajosos, sensatos e de bom coração, há quem diga que são parecidos, e até são um pouco. Ambos são honestos, hábeis, confiáveis. Qualidades em comum. Os dois são bons para pedir conselhos ou apoio. Mas são diferentes, é claro, como todos somos. Na verdade, são muito diferentes, como a espada e a lança são diferentes. A diferença entre eles é a diferença entre um bodhrán e um violão: cada um possui seu estilo, seu método, sua aparência, sua função, sua sonoridade… mas os dois fazem música, e, quando juntos, são imbatíveis.

Nossa mulher sábia é facilmente reconhecida pelos seus olhos profundos e seu sorriso atento. Ela observa e percebe, atravessando carne e osso até chegar na alma. Esse olhar certeiro permanece ali mesmo enquanto ela ri, bebe e brinca como todos nós, provando dos quitutes maravilhosos da sua cozinha. Uma piada, uma tolice, uma gargalhada… e então um piscar de olho sabido, como se ela tivesse lido a sua mente. Um sorriso de entendimento, como se cada pequeno gesto fosse um ato de magia. Eu sempre a vejo sorrindo, quando fecho os olhos.

A que está sempre dançando, leve e pequena, é nossa fada. Seu rosto angelical e seus sorrisos de menina enganam, porque ela é forte, decidida e cheia de ideias. Fala muito, pulando de um assunto ao outro como um vento que passa, ou uma chama que agita-se. Eu a vejo sempre dançando e saltando de um pé para o outro, leve e delicada, os cabelos e a saia rodada pulando junto. Ou então, de arco na mão e violino no ombro, ou flauta na boca, dizendo que tudo é possível, basta persistir.

Observando muito e geralmente em silêncio está nosso vate. Conhecedor de ervas, animais e dos galhos de Ogham, é ele também nosso professor de gaeilge. Vejo-o como o interior da terra ou o fundo do mar, onde raízes aprofundam-se e água brota cristalina em poços, ou onde cantam animais desconhecidos e escondem-se mistérios subaquáticos. É bom para pedir conselhos ou vislumbres do futuro, e também para discutir tudo aquilo que é de natureza etérea, espiritual, ou práticas e construções concretas para Deuses e espíritos.

Com sua bela voz a erguer-se em brindes e canções é fácil identificar nossa Áes Dána. Capaz de tocar muitos instrumentos e contar várias histórias, é comum vê-la de violão na mão e olhar atento para perceber quem precisa de ajuda e de cuidado. De tudo faz um pouco: artesanato, sugestão de ideias, música, montagem de barracas, oferta de ombro amigo, culinária… e o truque dela é muito simples, mas fundamental – partes iguais de boa vontade e disponibilidade.

Mencionei oito, mas oficialmente somos quinze (e bem mais que isso, se contarmos os queridos agregados). Passaria muitas e muitas horas falando de todos, belas mulheres de talento e dedicação, fortes homens de habilidade e conhecimento. A fadinha uma vez me disse, com uma espécie leve e alegre de sabedoria que lhe é muito própria: “Juntando todo mundo desse grupo a gente faz qualquer coisa, se fosse usar pro mal seríamos excelentes criminosos! Ainda bem que é todo mundo do bem!”

Ao todo um grupo misto, cada um com sua origem, sua história e sua voz. Mas unido por um laço que ultrapassa sangue, origem, história, tudo. Às vezes paro e olho em volta, cada um falando e gesticulando e expressando suas personalidades como estrelas emitem luz… e sinto uma coisa forte no peito, uma mistura de orgulho e gratidão… porque faço parte disso.

Vigésimo primeiro dia: Vida Consciente

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Por dois anos trabalhei em uma escola como professora de arte. Eu dava aula para mais de 150 alunos, de todas as idades entre 6 e 17 anos. Meus mais novos estavam sendo alfabetizados enquanto meus mais velhos estudavam para o vestibular. Eu gostava demais dos alunos, sendo eles o lado bom do trabalho. Mesmo quando se comportavam mal ou não se dedicavam, mesmo quando às vezes me davam uma resposta atravessada ou criavam uma situação ruim… a própria convivência, a troca, o carinho, a construção daquele vínculo entre eu e eles era muito feliz.

Tudo tem características boas e características ruins. Não gosto de me reter muito nas ruins, mas posso dizer que, no caso dessa escola, elas eram em grande quantidade. A filosofia da escola não batia com a minha filosofia pessoal, e constantemente eu me sentia forçando a mim mesma a fazer algo com que não concordava. O volume de trabalho era extraordinariamente grande, excessivo para uma pessoa só dar conta, mesmo que essa pessoa tivesse apenas aquele lugar para dedicar-se. Acertos dificilmente eram reconhecidos e muito menos recompensados, enquanto que erros eram apontados constantemente e algumas das críticas beiravam a humilhação. Colocando tudo na balança, o bom e o mau, o saldo fica negativo… realisticamente falando.

Com o tempo, todos os aspectos negativos foram pesando tanto em mim que meus pensamentos giravam em torno de duas coisas: lembranças de coisas ruins que tinham acontecido e preocupações com tarefas árduas e muitas vezes indesejáveis que estavam por vir. Eu vivia estrangulada, entre um passado ruim e um futuro indesejado, olhando de um para o outro. Não é surpresa nenhuma que eu vivesse também doente.

As doenças eram variadas, de gastroenterite a pneumonia, passando por otite, afonia, gripes mil, conjuntivite e alergias. Pela primeira vez na vida tive sinusite. Pela primeira vez na vida me apareceram cabelos brancos.

E tudo isso, as doenças, o stress, as preocupações, o trabalho desumanamente intenso, os aborrecimentos e sapos engolidos… tudo isso me afastou bastante da religião. Faltava rituais com frequência, muitas vezes limitando-me a fazer uma curtíssima prece quando me dava conta, ao escrever a data no quadro da sala de aula, que aquele era um dia especial.

Não é nenhuma surpresa que as coisas começaram a dar errado umas em cima das outras. E não estou dizendo que é “punição divina” ou alguma espécie de magia ou maldição. É, antes, uma questão de ótica. Ou de causa e efeito.

Se eu tivesse, ao invés de me violar cotidianamente para cumprir com o trabalho, sido sincera comigo mesma e com meus empregadores e pedido ajuda, alguém para dividir o trabalho, ou até mesmo ido procurar alguma outra coisa, não teria passado pelas noites de trabalho desumanamente excessivo. Se eu tivesse me concentrado nos alunos que eu tinha diante dos meus olhos sempre, valorizando aquela relação da qual hoje sinto saudade, não teria me consumido tanto pelas lembranças de humilhações passadas e pelos fantasmas das exigências futuras. Se eu tivesse mantido meu centro, minha paz aqui dentro, dando valor ao que valor possui, não teria me desequilibrado tanto, e ficado tão doente. Se eu tivesse feito um esforço, não teria me afastado da minha espiritualidade, que é algo que me faz tão bem.

Muitos “se”, e é claro que “o ‘se’ está morto e enterrado”, como diria um amigo meu, mas acho importante encarar as coisas desse modo. Às vezes entramos em situações cujas características ruins superam em muito as boas, e temos que tomar muito cuidado para não nos vermos vitimizados pelas circunstâncias. É importante sabermos assumir a responsabilidade, sobre nós mesmos, nossos atos, nossas escolhas e nossos destinos. Observar como nossas ações nos levaram à situação onde chegamos, até porque só assim podemos aprender a agir diferente em uma situação semelhante no futuro. E, acima de tudo, tentar compreender que situações difíceis também são importantes. Elas ensinam, elas criam defesas, elas abrem portas, elas nos fazem crescer.

Apesar de todos os “se” que listei ali em cima, eu não mudaria nada. Apesar do sofrimento, eu não apagaria aqueles dois anos da minha vida. Aprendi tanta coisa, conheci tantas pessoas, adquiri tantas habilidades… e até hoje, mais de um ano depois, ainda recebo recados carinhosos no facebook, ainda sou adicionada, procurada, querida pelos meus ex-alunos. Isso prova que, de fato, é das nuvens mais escuras que cai a água mais limpa.

De uma coisa tenho consciência: se eu estiver em uma situação semelhante à que estive nessa escola onde trabalhei, minha atitude será diferente, a experiência será completamente diferente. Porque eu cresci. Meus olhos estão abertos. Olha com os olhos e ouve com os ouvidos, disse Syrio Forel a Arya Stark durante suas aulas de dança em Guerra dos Tronos. Digamos que a vida é como um grande amigo oculto: só ganha presente, no presente, quem está presente.