Nono dia: Ancestrais

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Há dois meses atrás eu fui na ginecologista porque estava sangrando muito, uma coisa anormal, fora de época e que nunca tinha me acontecido antes. Após alguns exames, para encurtar o assunto, foi identificado um pólipo dentro do meu útero, e era por causa dele que eu sangrava tanto. O pólipo é um tumor benigno (pelo menos na grande maioria das ocasiões), que não tem nenhum risco de morte, nem traz nenhum grande problema (exceto talvez o sangramento e, é claro, o fato de que sou jovem e quero ter filhos, e o pólipo dificulta muito nessa empreitada em particular), mas tinha que tirar. Após mais alguns exames e consultas, a médica marcou a cirurgia: dia 28 de Novembro.

Não me fugiu à percepção de que o dia seguinte, 29 de Novembro, seria o aniversário da minha avó, falecida em 2008.

Minha avó me criou. Até os 12 anos, dormi na mesma cama que ela, e depois pulei para a cama de baixo da bicama, e dividi quarto com ela até os 19, quando me mudei para o quarto ao lado. A morte dela, há três anos atrás, foi um enorme baque na minha vida. Não foi o primeiro familiar que perdi, nem o primeiro enterro a que fui, mas foi a primeira vez que, para mim, a morte mudou tudo.

Assim que recebi a data da cirurgia, rezei muito para a minha avó. Quando eu ficava doente, era sempre ela quem cuidava de mim, fazia um chazinho ou um mingau de chocolate e me punha no colo, e a doença sumia. E eu fiquei querendo tanto aquele colo… querendo tanto que ela estivesse ali, para segurar minha mão…

Conforme foi chegando o dia 28, eu sentia a vóinha cada vez mais perto. Pensava nas coisas que ela achava graça, e isso me deixava forte. Na semana antes da cirurgia comprei uma banana split, sobremesa favorita dela, e propus rachar com ela, comermos juntas. Cada colherada de sorvete com banana era como se ela estivesse mais viva, mais presente. Fui me sentindo mais forte, sabendo que ela ia ficar junto, e não ia deixar nada dar errado… no dia da cirurgia, fui para o hospital usando uma camiseta que tinha sido dela, e já estava bem mais confiante. Do jeito que vovó é, não vai deixar ninguém fazer besteira com o meu corpo, vai ficar de olho!…

Eu tenho um cantinho do altar reservado aos Ancestrais, e lá eu coloco principalmente fotografias e às vezes até objetos pertencentes a familiares já falecidos. Tenho coisas de vóinha, mas também do meu tio que já se foi, do meu avô materno e dos meus avós paternos, mas também fiz símbolos para os Ancestrais mais vagos e sem nome ou rosto, cujo sangue também corre nas minhas veias.

Honro o sangue que corre em minhas veias.

A cirurgia deu certíssimo, por sinal. Vóinha ficou super de olho, tenho certeza. E depois, dividi outra banana split com ela – essa por agradecimento.

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