Vigésimo nono dia: Futuro

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Oisín, filho do herói Fionn Mac Cumhaill e célebre guerreiro e poeta dos Fianna, certa vez foi convidado pela filha do deus do mar Manannán, Níamh Chinn Óir, para ir com ela a Tir na nÓg, a Terra da Juventude. Após ficar lá com Níamh por três anos, Oisín resolveu retornar à Irlanda. O problema é que o tempo em Tir na nÓg passa diferente, e na verdade passaram-se 300 anos na Irlanda. Então Níamh avisou Oisín que, se ele tocasse com os pés o solo da Irlanda, ele sentiria os efeitos dos 300 anos e ficaria murcho e velho. Ele retornou à Irlanda mesmo assim, cavalgando Énbarr, o cavalo branco de Níamh que corre igualmente bem sobre a terra e sobre o mar.

Ao chegar à Irlanda, Oisín descobriu que muitas coisas mudaram nesses 300 anos. O antigo lar de seu pai encontrava-se em ruínas, e todos os que ele um dia conheceu estavam mortos há muito. Mas os próprios homens daquela terra estavam diferentes, menores, mais fracos e menos sábios, parecia, e ele compadeceu-se ao ver a dificuldade com que eles moviam pedras para criar uma estrada, o que o motivou a ajudá-los. Ao mover a pedra, que era pesada, a correia da sela de Énbarr não aguentou a pressão e partiu-se, fazendo com que Oisín desequilibrasse-se e caísse no chão, transformando-se em um velho imediatamente conforme previsto por Níamh. O cavalo retornou a Tír na nÓg, e Oisín, agora um ancião cuja vida aproximava-se do fim, permaneceu na Irlanda, e em algumas versões desse conto ele encontrou ninguém menos que São Patrício e com ele teve uma longa conversa antes de morrer.

O druidismo está vivendo um momento muito interessante agora, a meu ver. Lembro de uma época em que druidismo era um tema escasso em terras brazucas, um nicho onde um grupo pequeno em que todos se conheciam trabalhava principalmente para traduzir e compartilhar textos que na época estavam disponíveis apenas em inglês. E olhe lá! Dessa época tenho ainda uma pasta repleta de arquivos *.txt copiados de emails trocados na finada (e saudosa) Creideamh, materiais da ODB, criada pelo Robert Kaucher, e muitos textos impressos desta época e de épocas posteriores, organizados em pastas ou encadernados em espiral. Dentre essas relíquias antigas tenho até mesmo uma cópia em xerox do Apple Branch com uma mensagem do Endovelicon, que me foi passada generosamente pela Fê.

De lá para cá as coisas foram mudando, e até certo ponto até acompanhei as mudanças. Lembro de quando começou-se a falar de Reconstrucionismo Celta, e lembro quando havia duas comunidades muito boas sobre o assunto no orkut. Lembro de quando nos reunimos para traduzir o FAQ, e de quando um dos melhores sites em português sobre o assunto era o da Luciana Cavalcanti, o Três Mundos. Também me lembro que foi nesses espaços virtuais que conheci algumas das pessoas que até hoje são algumas das mais importantes em minha vida, meu clã, quando publicaram o anúncio de um grupo de estudos de gaeilge aqui no Rio de Janeiro.

Depois disso, como Oisín ao retirar-se para Tír na nÓg, afastei-me desse mundo, dessa grande comunidade virtual, e por razões puramente pessoais. A essa altura eu já estava com o meu clã, e nossas práticas e trocas e debates saciaram minha necessidade de compartilhar conhecimento e ideias, enquanto a vida me empurrava através de inúmeros processos, tão mundanos quanto cruciais (faculdade, estágio, casamento, trabalho…)

Mas um dia, é chegada a hora de voltar. Sentimos uma saudade, que começa como uma cosquinha lá dentro, mas que aos poucos vai se avolumando e tornando-se um desejo, para então converter-se em prioridade. O primeiro passo disso, na minha vida, acabou sendo justamente esses 30 dias, iniciados no finzinho do ano passado, que me conduziram a uma série de reflexões e percepções, tanto a respeito daqueles ensinamentos lá do passado, quanto os que fazem parte do presente que, assim como Oisín ao retornar à Irlanda e conversar com São Patrício, são para mim uma grande novidade.

Acho que minha experiência está sendo muito mais feliz do que a de Oisín, no entanto. Encontrei alguns dos meus antigos colegas de troca e debate crescidos, transformados em grandes homens e mulheres de conhecimento, o exato oposto dos homens baixos e fracos que Oisín encontrou. Encontrei novas teorias enriquecedoras, e novos membros, tantas novas árvores desconhecidas e interessantes, novos grupos e novos conceitos, novas percepções. Encontrei novas perspectivas, novas perguntas e novas respostas, novas possibilidades. Fiquei até um pouco perdida, e tenho consciência de que essa sensação, de desorientação, ainda perdurará por um tempo, até que eu consiga fincar ambos os pés nesse chão e minha mente adaptar-se a tudo o que ocorreu na minha ausência, um pouco como o corpo de Oisín precisou adaptar-se ao tempo passado na Irlanda durante aqueles 300 anos.

Não há futuro sem passado ou presente, por isso acabei falando de ambos (e contei mais uma vez com a enorme paciência de quem consegue ler o que escrevo). Mas uma parte da razão pela qual falei tanto do passado e do presente é que é muito difícil, para mim, falar do futuro. Sou nostálgica e saudosista por natureza, e sou inconstante demais para conseguir criar para mim um planejamento claro sequer para o jantar de amanhã. Futuro era um dos temas que desde o princípio eu sabia que me daria trabalho, porque o futuro para mim é um mistério dentro de um mistério.

Mas acredito que existe uma progressão lógica, e ela governa nosso mundo. E, relacionando o passado que deixei quando saí “em retiro” e o presente que encontrei no meu retorno, imagino que talvez seja lógico que uma relação semelhante possa estabelecer-se entre o presente e o futuro da nossa religião… e, bem, se isso for fato, o futuro me parece repleto de excelentes possibilidades.

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