Vigésimo dia: Oração

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Eu venho de uma família muito unida, do tipo que chega junto, ajuda, apóia, comparece a casamentos e funerais, almoços de domingo e longos telefonemas. E, mesmo quando o cotidiano complicado, as obrigações da vida impedem maior contato, notícias são sempre passadas. Está-se sempre falando de quem mudou de emprego, quem terminou o namoro e quem resolveu que não vai mais viajar para Fortaleza. Quando era viva, minha avó com as duas irmãs mais novas eram tão envolvidas nessa rede de informações que chamávamos de triângulo de reportagem, em que informações completas eram passadas pelo telefone todos os dias, para depois serem mencionadas para os demais moradores da casa no almoço ou no jantar. Quando minha irmã mais velha casou, minha mãe sofreu muito a saudade. E, quando foi minha vez, ela não estava nem um pouco mais acostumada à ideia: sofreu tudo de novo, igualzinho.

Mas ajudou. Casar teria sido muito difícil sem a ajuda da família como um todo, aliás. Herdei do quarto da minha avó metade dos móveis da sala. Minha mãe, minha sogra e meu primo (padrinho de casamento) mobiliaram meu quarto de casal. Minha prima (e madrinha de casamento) foi quem me deu a geladeira. Minha irmã deu o fogão. Minha tia, a máquina de lavar. E assim foi. Uma ajuda gigantesca, porque rapidinho, quando olhei em volta, a casa estava montada. Eu podia cozinhar, gelar bebidas e lavar roupa. Tínhamos mesa para comer, cama para dormir e armários e estantes para guardar nossas muitas tralhas. Foi quase mágico, uma coisa meio Fada Madrinha, meio Mary Poppins. Um dia o apartamento está vazio, no seguinte, cheio e confortável. O apartamento em si também é algo a se agradecer à família, aliás, a família do meu marido: pertencente a um tio-avô, foi conseguido com a ajuda do avô dele, que desenrolou os termos do aluguel com o irmão.

Hoje em dia eu tenho minha vidinha estruturada aqui, no meu apartamento. E juro que toda vez que lavo a roupa, lembro da minha tia que me deu a máquina e penso nela com amor. Ocasionalmente, quando vejo que a geladeira (que é muito boa) gelou rapidinho um refrigerante ou uma cerveja, penso em como minha prima foi maravilhosa em me ter dado aquele presente caro e tão essencial. Outro dia, tomando toddy numa caneca, comentei com um amigo que aquela caneca eu ganhei da Érika, uma amiga querida, no meu chá de panela, e pensei com carinho nela. Eu sempre lembro quem deu o que, seja do enxoval, do chá de panela, às vezes uma miudeza, um pano de prato, um abridor de latas… eu lembro das pessoas, família e amigos, que me deram aquilo. E fico muito grata a eles…

É claro que nem tudo são flores. De vez em quando rola um probleminha comum e cotidiano (tipo a confusão com o cartão de crédito que me fez vários fios brancos no cabelo e me fez jurar que nunca mais terei cartões de crédito na vida), e às vezes não consigo resolver sozinha. Aí toda a minha maturidade de dona de casa desaparece e eu ligo chorando pro papai. Papaaaai, socorro!!! Ou então, para a mamãe. Ou para a titia ou para a prima querida. Conto minhas mazelas, muitas vezes pedindo solução ou favores, mas normalmente só desabafando mesmo. E eles ajudam. Família é pra essas coisas. Família… é tudo. São aquelas pessoas, que possuem ou não o seu sangue (porque sempre levo em consideração os amigos mais próximos, aquela família que a gente escolhe), mas que estão lá, uma rede de segurança… aquelas pessoas que são como você, que têm o seu amor, o seu respeito e a sua lealdade, e por quem você faria qualquer coisa, e às vezes até tem oportunidade de retribuir… com quem você também briga, se revolta e se frustra, só para depois perdoar tudo, porque de fato… o que vocês têm é infinitamente maior do que a causa da chateação.

Falei tudo isso para dizer que essa é a relação que eu tenho com os meus Deuses. É, eles são a minha família. Só que eles me deram muito mais do que só uma geladeira ou um guarda-roupa. E, do mesmo modo que eu não consigo beber uma água gelada sem agradecer mentalmente minha prima, não consigo deixar de admirar a Pedra da Gávea em todo o seu esplendor diante da janela do meu trabalho e não agradecer mentalmente aos Deuses. Também procuro a proximidade com os meus Deuses, em rituais, meditações e pequenos momentos diante do altar, do mesmo modo que visito minha mãe para o almoço de domingo. Também converso com eles, e procuro conhecê-los melhor e sentir sua presença e suas mensagens, do mesmo modo que procuro visitar meus amigos mais queridos para colocar o papo em dia. Também peço socorro às vezes, muitas destas desesperadamente, chorosa e confusa como eu consigo ser, contando o problema e esperando uma ajuda, ou simplesmente desabafar. E também, por fim, tento dar um pouco do que recebo, através de oferendas e agradecimentos, do mesmo modo que abraço apertado familiares e amigos, ou lhes compro presentinhos.

A única diferença é que eu posso visitar amigos e familiares, ou encontrar com eles em um lugar marcado. Os Deuses estão sempre comigo, e basta pensar Neles para sentir Sua presença. Para falar com familiares e amigos eu uso o telefone, o facebook, o msn, o skype, ou o bom e velho tête-à-tête, quando a vida permite.

Para falar com os Deuses, eu uso a oração. (:

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