Décimo quinto dia: Histórias

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Uma das coisas que sabemos com certeza a respeito dos Celtas é que eles não escreviam. Tudo que eles sabiam – poesias e canções, genealogias de reis e histórias dos deuses, contos sobre lugares e heróis… era contado pelo mais velho para o mais novo, à beira do fogo dentro de casa ou sob o trançado dos galhos de árvores do bosque, durante um caminho a cavalo ou ao som das cordas da harpa durante uma festa. A falta de registro gerava pessoas de boa memória (embora diga-se que as histórias não eram contadas sempre da mesma forma, eram coisas vivas e mutáveis, que cada contador modificava um pouco) mas, ao mesmo tempo, também gerava a não permanência de muitas dessas memórias até os tempos atuais… e muita daquela sabedoria viva, mutável, perdeu-se.

Na Idade Média, monges irlandeses tomaram para si a tarefa de registrar o conhecimento de tempos idos, e muitos livros importantes foram escritos: o Livro de Ballymote, o Livro Amarelo de Lecan, o Livro de Dun Cow, o Livro de Leinster, o Grande Livro de Lecan… nesses livros, grandes miscelâneas, estavam relatos de uma história mítica da Irlanda e também de muito da história verdadeira, conhecimentos e legislações, poesias e crenças, contos de santos, de reis e de heróis, genealogias, descrições de nomes de lugares, e de um alfabeto de suposta origem mitológica.

Esses livros são, no fundo, verdadeiros Frankensteins, com tantas informações variadas, fragmentadas, contraditórias, versões diferentes de uma mesma história, algumas simplesmente mais longas ou mais resumidas, enquanto que em outras os próprios eventos são modificados. Nem mesmo os nomes são constantes: um mesmo homem é chamado de Oengus aqui, de Aengus ou Angus acolá, e de Mac Óc ou Mac Óg em outro canto. Para mim, tanta disparidade simplesmente reforça a própria natureza dessas histórias: eu as imagino livres, cada versão dependendo exclusivamente da inspiração ou visão do contador, tão múltiplas e variadas quanto são as vozes das pessoas.

Eu acho isso mágico. Quando eu era criança, sentava no colo da minha avó e adorava ouvir suas histórias: ela contava sobre sua infância em Pernambuco, sua vinda para o Rio de Janeiro ainda novinha, como eram as ruas de Santa Teresa onde ela cresceu. Eu escutava embevecida suas histórias sobre sua mãe e a mãe desta, sobre o bonde que cruzava boa parte da cidade mais pro início do século, e as histórias sobre o fim do mundo que contava minha bisavó. Do meu pai eu ouvia relatos sobre sua infância e a morte de seus pais, e sobre suas lutas quando rapaz durante a ditadura militar. De mamãe eu ouvia a respeito das brincadeiras que fazia com massa de modelar ou bonecas de papel, e sobre suas aventuras com as amigas durante o curso normal. De todos eu ouvia contos sobre santos e orixás, sobre fraternidades esotéricas e fantasmas vislumbrados ocasionalmente, elementais da terra e magos de tempos idos, e sobre ciganos executados durante a Segunda Guerra Mundial.

Era uma infância colorida por personagens, fatos e lugares, que me despertavam uma paixão tão grande e, combinando-se com os muitos livros de ilustrações primorosas que estavam sempre na minha mão, despertaram-me o desejo de um dia ser escritora.

Um dia terei meus próprios filhos e netos para segurar no colo e contar tantas histórias fantásticas, minhas e dos outros. A eles contarei sobre O Jovem, Oengus do Brugh, que certa vez aconselhou seu pai, o grande Daghda, a respeito de como enganar a tirania de Bress e encontrar a liberdade.

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  1. Pergunta básica: agora que você chegou à metade do caminho, o que está achando dos 30 Dias? Quais os efeitos desse exercício na sua vida presente?
    (é só curiosidade e retórica, não precisa escrever se não quiser, mas pense nisso…)
    ;-)))

    • Tem sido exatamente o que eu precisava!

      Às vezes alguns temas são mais difíceis, e exigem mais de mim. Mas tem servido no mínimo como uma ponte de reflexão, entre meu cotidiano e tudo aquilo o que eu não devo esquecer. Tem sido uma oportunidade de estudar, pensar, imaginar e lembrar.

      Às vezes bate o desespero, principalmente quando vejo que não vai rolar do post sair naquele momento e me atraso toda!

      Mas os pontos positivos fazem valer a pena ^_^

      Ah, e a insegurança persiste =x é tão difícil me expor e

  2. Você já viu o filme Peixe Grande? Se não viu, veja com urgencia máxima. Eu me identifiquei absurdamente com ele justamente por conta dessa riqueza de histórias que permearam a minha infância. Fantástico.

    Poxa, La, adorei seus posts, me fez refletir sobre muita, muita coisa. Coisas que eu deixei passar, coisas q eu pedi pra passar pq n era hora ainda e principalmente coisas importantíssimas que eu jamais poderia ter esquecido.

    Abraço apertado!! Fica bem! =)

    • AMO Peixe Grande! E é isso mesmo, me identifiquei imensamente.

      Fico feliz que você esteja gostando! Tá sendo super importante pra mim, porque eu também tenho me relembrado de coisas que não podem ser esquecidas.

      E nosso passeio na floresta, hein? Fique bem você também… abração!

  3. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

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