Vigésimo oitavo dia: Caminho

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Ainda tínhamos vários dias de viagem pela frente mas, dentro de mim, aquele era o fim do caminho.

Descemos do ônibus e subimos uma estradinha, onde fomos orientados a aguardar atrás de um portão de madeira. Dali já podíamos visualizar nosso objetivo, imponente, grandioso e, como quase tudo naquela ilha maravilhosa, enriquecido dos mais inacreditáveis tons de verde.

Brú na Bóinne, era o nome daquele cairn, o Palácio do Boyne. Também conhecido como Newgrange.

Quando finalmente o portão foi aberto e pudemos nos aproximar, senti uma emoção imensurável. Foi bem ali, minha mente eufórica me informava, que Daghda teria morado. Aquele era o palácio que Oengus, O Jovem, teria tomado como seu após um dos seus espertos ardis. E, mitos à parte, aquele era obviamente solo sagrado. Dava para se sentir nos ossos.

Aquele era apenas o fim de um caminho, para mim. Um caminho de proporções espirituais indescritíveis, que começara dias antes à beira do poço de Bríd em Kildare e torcera-se e curvara-se por diversos quilômetros de estradas que cruzavam campos verdejantes entrecruzados de baixos muros de pedra e pontilhados de ovelhas, até afinal nos trazer até ali. Tantas coisas meus olhos viram incrédulos, meus dedos tocaram trêmulos e meu coração sentiu com tanta força.

Corvos que voavam aos montes em um cemitério antigo, falando conosco com suas vozes roucas e nos observando atentamente. Rochas vulcânicas extraordinárias que espraiavam-se em todas as direções formando desenhos fantásticos entremeados de folhagens verdes e enfeitadas com dólmens de pedra surpreendentemente morna.  Cairns ancestrais pontilhando uma paisagem verdejante, simultaneamente túmulos sagrados e moradas míticas dos deuses, com seus corredores e câmaras internas dispostas em cruz e suas presenças silenciosas a anunciar-se aos sentidos não-físicos. Uma planície onde teria ocorrido uma batalha mitológica, Moytura, nos encarando de uma paisagem ampla e tão bela lá embaixo, com um lago cintilante a adorná-la e incontáveis tons de verde. A colina onde estivera o próprio centro do Ulster, verdejante e altiva, ainda com resquícios da paliçada que antes a adornara. A pedra onde o bravo herói Cu Chulainn teria amarrado-se vislumbrada à distância, com um corvo nela empoleirado como um significativo vigia e uma manada de vacas pondo-se entre nós e a pedra, como se para impedir nosso avanço. Uma pedra ancestral que teria sido trazida de Fálias em tempos míticos, repousando no topo de uma colina verde como um marco sagrado. E afinal esse cairn monumental, erguendo-se diante de nós como uma miragem.

Esse caminho externo, percorrido com pés e rodas de carro, foi crucial para alimentar o outro caminho, esse interno, que sempre esteve lá. Cada colina, cada cairn, cada lago e rio, cada pedra sagrada, encontrava surpreendente eco nas colinas, rios, lagos, pedras e cairns que já estavam aqui dentro, a um ponto em que a visita parecia-se muito mais com um reencontro.

Tocando reverentemente e traçando com o dedo as ancestrais espirais gravadas na pedra que guarda a entrada do imponente monumento que é Newgrange, percebi de repente que esse caminho espiritual que me escolheu se parece bastante com as voltas e curvas daqueles veios de pedra.

Cada um o percorre só, pois por mais que eu tenha agarrado com força a mão da fadinha do meu clã e tentado passar através desse toque aquele sentimento que era grande demais para colocar em palavras, os pés que atravessaram o corredor estreito até a alta câmara interna eram meus, e ninguém poderia jamais movê-los por mim. Mas também caminhamos juntos, pois é impossível postar-se dentro da câmara, e observar as pedras arranjadas em espirais progressivamente menores que formam o teto e não pensar em todos aqueles que vieram antes de mim. Como não pensar nas mãos cheias de perícia que ergueram aquelas pedras e as puseram em seus lugares? Como não pensar nos rostos reverentes daqueles que andaram por aquele chão, depositando naqueles três recantos semelhantes a altares as cinzas de seus mortos? Como não pensar nas vozes daqueles que observaram a grandiosidade daquele prédio em outros tempos, e sobre ele contaram tantas histórias, poderosas o suficiente para atravessar séculos incontáveis e chegar ao meu conhecimento?

Como não pensar em todos os outros como eu, como meus companheiros daquela jornada, que aguardaram ansiosos pela vez de entrar, e encontraram lá dentro um significado tão profundo que aquele caminho já não parecia mais feito de madeira, e depois grama, e depois pedra fria e ancestral:  aquele caminho parecia apenas continuação e eco daquele outro, que todos os que seguem a nossa religião já têm caminhado, antes mesmo de compreender que toda a sua vida fluiu para ele e através dele, como fluem as águas caudalosas do rio Boyne.

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