Vigésimo primeiro dia: Vida Consciente

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Por dois anos trabalhei em uma escola como professora de arte. Eu dava aula para mais de 150 alunos, de todas as idades entre 6 e 17 anos. Meus mais novos estavam sendo alfabetizados enquanto meus mais velhos estudavam para o vestibular. Eu gostava demais dos alunos, sendo eles o lado bom do trabalho. Mesmo quando se comportavam mal ou não se dedicavam, mesmo quando às vezes me davam uma resposta atravessada ou criavam uma situação ruim… a própria convivência, a troca, o carinho, a construção daquele vínculo entre eu e eles era muito feliz.

Tudo tem características boas e características ruins. Não gosto de me reter muito nas ruins, mas posso dizer que, no caso dessa escola, elas eram em grande quantidade. A filosofia da escola não batia com a minha filosofia pessoal, e constantemente eu me sentia forçando a mim mesma a fazer algo com que não concordava. O volume de trabalho era extraordinariamente grande, excessivo para uma pessoa só dar conta, mesmo que essa pessoa tivesse apenas aquele lugar para dedicar-se. Acertos dificilmente eram reconhecidos e muito menos recompensados, enquanto que erros eram apontados constantemente e algumas das críticas beiravam a humilhação. Colocando tudo na balança, o bom e o mau, o saldo fica negativo… realisticamente falando.

Com o tempo, todos os aspectos negativos foram pesando tanto em mim que meus pensamentos giravam em torno de duas coisas: lembranças de coisas ruins que tinham acontecido e preocupações com tarefas árduas e muitas vezes indesejáveis que estavam por vir. Eu vivia estrangulada, entre um passado ruim e um futuro indesejado, olhando de um para o outro. Não é surpresa nenhuma que eu vivesse também doente.

As doenças eram variadas, de gastroenterite a pneumonia, passando por otite, afonia, gripes mil, conjuntivite e alergias. Pela primeira vez na vida tive sinusite. Pela primeira vez na vida me apareceram cabelos brancos.

E tudo isso, as doenças, o stress, as preocupações, o trabalho desumanamente intenso, os aborrecimentos e sapos engolidos… tudo isso me afastou bastante da religião. Faltava rituais com frequência, muitas vezes limitando-me a fazer uma curtíssima prece quando me dava conta, ao escrever a data no quadro da sala de aula, que aquele era um dia especial.

Não é nenhuma surpresa que as coisas começaram a dar errado umas em cima das outras. E não estou dizendo que é “punição divina” ou alguma espécie de magia ou maldição. É, antes, uma questão de ótica. Ou de causa e efeito.

Se eu tivesse, ao invés de me violar cotidianamente para cumprir com o trabalho, sido sincera comigo mesma e com meus empregadores e pedido ajuda, alguém para dividir o trabalho, ou até mesmo ido procurar alguma outra coisa, não teria passado pelas noites de trabalho desumanamente excessivo. Se eu tivesse me concentrado nos alunos que eu tinha diante dos meus olhos sempre, valorizando aquela relação da qual hoje sinto saudade, não teria me consumido tanto pelas lembranças de humilhações passadas e pelos fantasmas das exigências futuras. Se eu tivesse mantido meu centro, minha paz aqui dentro, dando valor ao que valor possui, não teria me desequilibrado tanto, e ficado tão doente. Se eu tivesse feito um esforço, não teria me afastado da minha espiritualidade, que é algo que me faz tão bem.

Muitos “se”, e é claro que “o ‘se’ está morto e enterrado”, como diria um amigo meu, mas acho importante encarar as coisas desse modo. Às vezes entramos em situações cujas características ruins superam em muito as boas, e temos que tomar muito cuidado para não nos vermos vitimizados pelas circunstâncias. É importante sabermos assumir a responsabilidade, sobre nós mesmos, nossos atos, nossas escolhas e nossos destinos. Observar como nossas ações nos levaram à situação onde chegamos, até porque só assim podemos aprender a agir diferente em uma situação semelhante no futuro. E, acima de tudo, tentar compreender que situações difíceis também são importantes. Elas ensinam, elas criam defesas, elas abrem portas, elas nos fazem crescer.

Apesar de todos os “se” que listei ali em cima, eu não mudaria nada. Apesar do sofrimento, eu não apagaria aqueles dois anos da minha vida. Aprendi tanta coisa, conheci tantas pessoas, adquiri tantas habilidades… e até hoje, mais de um ano depois, ainda recebo recados carinhosos no facebook, ainda sou adicionada, procurada, querida pelos meus ex-alunos. Isso prova que, de fato, é das nuvens mais escuras que cai a água mais limpa.

De uma coisa tenho consciência: se eu estiver em uma situação semelhante à que estive nessa escola onde trabalhei, minha atitude será diferente, a experiência será completamente diferente. Porque eu cresci. Meus olhos estão abertos. Olha com os olhos e ouve com os ouvidos, disse Syrio Forel a Arya Stark durante suas aulas de dança em Guerra dos Tronos. Digamos que a vida é como um grande amigo oculto: só ganha presente, no presente, quem está presente.

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