Vigésimo segundo dia: Família e Amigos

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Lugh, chamado Lamhfhada (“braço longo”), ou Samhildánach (“de muitas habilidades”), é um dos deuses irlandeses mais proeminentes, conhecidos e reverenciados. Não fugiu à minha observação (e de ninguém, de fato) o fato de que seu pai, Cian, é um Tuatha Dé Danann, e sua mãe, Ethniu filha de Balor, é uma Formorian. Fazendo-o descendente de ambos, os recém-chegados e os que lá já estavam. A habilidade e a matéria prima. A tribo e a terra. Mas o rito mais famoso sagrado a Lugh e que recebe seu nome é em honra a Tailtiu dos Fir Bolg, sua mãe adotiva. Laços familiares são claramente valorizados pelos celtas em tudo o que se encontra a respeito deles (o que mais esperar de um povo cujo núcleo é o clã?), mas a esta conta inclui-se facilmente aqueles adotivos, de consideração.

Isso posto, não falarei hoje a respeito da minha família de sangue, que muito valorizo e amo (e da qual já falei em vários posts). Falarei, ao invés, da adotiva, que para mim possui um valor semelhante.

Falarei do nosso clã.

Somos, aparentemente, um grupo de amigos como qualquer outro. Bebemos juntos, rimos juntos, discutimos longamente assuntos em comum, bebemos juntos, fazemos planos juntos, comemos juntos, bebemos juntos, gritamos uns com os outros, e fazemos provas de natação sem sentido quando bêbados (e já mencionei que bebemos juntos?). E, dentro do grupo, há aqueles que fazem também juntos oito rituais ao ano.

Para os olhos dos outros, somos um grupo de amigos apenas. É comum que associem automaticamente uns aos outros, porque nos encontramos com frequência, a um ponto em que já ocorreu de eu ser imensamente bem tratada por um completo desconhecido só porque ele sabe que sou desse grupo, e ele é amigo de alguém de lá (e isso já ocorreu várias vezes). Mas, aos olhos de quem está de fora, somos simplesmente amigos. Grupos de amigos, mesmo grupos tão unidos e com membros tão próximos, são até bem comuns. Mas, como disse Saint-Exupéry: o essencial é invisível aos olhos.

Somos um clã, uma família. Temos uma matriarca que nos mantém unidos, oferece a hospitalidade da sua casa, sendo anfitriã da maioria esmagadora de encontros, grandes e pequenos. Ela nos telefona para saber como estamos, lembra-se de aniversários, formaturas e casamentos, dá apoio em doenças e perdas. Ela é a nossa cola, inegavelmente, ou melhor dizendo, nosso coração, como a lareira de Bríd é o coração de um lar.

Seu marido é um bardo, de flauta hábil, riso fácil e grandes conhecimentos, confiável e disponível, sabendo quando brincar e beber até cair, e quando falar com seriedade e sensatez a respeito de qualquer assunto, em particular os referentes ao clã. Quando os dois viajaram por um mês ficamos todos perdidos. Como nos encontraríamos? Esquecemos como se usa o telefone e o e-mail. Foi como se um inverno europeu enchesse de neve as nossas portas, nos forçando à reclusão. Quando eles voltaram, o sol saiu e pudemos nos ver novamente.

Temos dois grandes guerreiros que, embora sejam muito diferentes em estatura física, são igualmente grandes no valor. Corajosos, sensatos e de bom coração, há quem diga que são parecidos, e até são um pouco. Ambos são honestos, hábeis, confiáveis. Qualidades em comum. Os dois são bons para pedir conselhos ou apoio. Mas são diferentes, é claro, como todos somos. Na verdade, são muito diferentes, como a espada e a lança são diferentes. A diferença entre eles é a diferença entre um bodhrán e um violão: cada um possui seu estilo, seu método, sua aparência, sua função, sua sonoridade… mas os dois fazem música, e, quando juntos, são imbatíveis.

Nossa mulher sábia é facilmente reconhecida pelos seus olhos profundos e seu sorriso atento. Ela observa e percebe, atravessando carne e osso até chegar na alma. Esse olhar certeiro permanece ali mesmo enquanto ela ri, bebe e brinca como todos nós, provando dos quitutes maravilhosos da sua cozinha. Uma piada, uma tolice, uma gargalhada… e então um piscar de olho sabido, como se ela tivesse lido a sua mente. Um sorriso de entendimento, como se cada pequeno gesto fosse um ato de magia. Eu sempre a vejo sorrindo, quando fecho os olhos.

A que está sempre dançando, leve e pequena, é nossa fada. Seu rosto angelical e seus sorrisos de menina enganam, porque ela é forte, decidida e cheia de ideias. Fala muito, pulando de um assunto ao outro como um vento que passa, ou uma chama que agita-se. Eu a vejo sempre dançando e saltando de um pé para o outro, leve e delicada, os cabelos e a saia rodada pulando junto. Ou então, de arco na mão e violino no ombro, ou flauta na boca, dizendo que tudo é possível, basta persistir.

Observando muito e geralmente em silêncio está nosso vate. Conhecedor de ervas, animais e dos galhos de Ogham, é ele também nosso professor de gaeilge. Vejo-o como o interior da terra ou o fundo do mar, onde raízes aprofundam-se e água brota cristalina em poços, ou onde cantam animais desconhecidos e escondem-se mistérios subaquáticos. É bom para pedir conselhos ou vislumbres do futuro, e também para discutir tudo aquilo que é de natureza etérea, espiritual, ou práticas e construções concretas para Deuses e espíritos.

Com sua bela voz a erguer-se em brindes e canções é fácil identificar nossa Áes Dána. Capaz de tocar muitos instrumentos e contar várias histórias, é comum vê-la de violão na mão e olhar atento para perceber quem precisa de ajuda e de cuidado. De tudo faz um pouco: artesanato, sugestão de ideias, música, montagem de barracas, oferta de ombro amigo, culinária… e o truque dela é muito simples, mas fundamental – partes iguais de boa vontade e disponibilidade.

Mencionei oito, mas oficialmente somos quinze (e bem mais que isso, se contarmos os queridos agregados). Passaria muitas e muitas horas falando de todos, belas mulheres de talento e dedicação, fortes homens de habilidade e conhecimento. A fadinha uma vez me disse, com uma espécie leve e alegre de sabedoria que lhe é muito própria: “Juntando todo mundo desse grupo a gente faz qualquer coisa, se fosse usar pro mal seríamos excelentes criminosos! Ainda bem que é todo mundo do bem!”

Ao todo um grupo misto, cada um com sua origem, sua história e sua voz. Mas unido por um laço que ultrapassa sangue, origem, história, tudo. Às vezes paro e olho em volta, cada um falando e gesticulando e expressando suas personalidades como estrelas emitem luz… e sinto uma coisa forte no peito, uma mistura de orgulho e gratidão… porque faço parte disso.

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  2. Mesmo lendo alguns posts, e até mesmo me emocionando, nunca expressei minha satisfação por ler coisas tão maravilhosas que você escreve.
    Porém, como pude ter o prazer e a honra de estar com essa família de amigos, e ainda por cima ser muito bem recebido por todos, quero dizer que aos olhos de quem esta “de fora”, vocês são a melhor família do mundo!

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