Décimo nono dia: Magia

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Ele já estava doente há bastante tempo, a verdade é essa. Doente por dentro e por fora, desde um acidente de carro ocorrido anos antes em que tinha perdido a orelha, desde que seu casamento acabou, anos antes, e a ex-mulher arrumou um namorado. Há anos que ele bebia demais, se amargurava demais, maldizia demais. E vovó estava muito preocupada quando veio me procurar: era o filho dela, afinal de contas. O caçula. Ela o amava imensamente. Todos nós o amávamos.

Naquela semana ela ficou sabendo que ele levou um tombo, tinha passado a madrugada deitado no chão na beira da estrada, diante do portão de casa, e não tinha tido forças para dar aqueles poucos passos até o abrigo. Ele morava em outra cidade com os filhos ainda meninos, longe de todos nós. Preocupada e sem conseguir arrancar dele pelo telefone a verdade, vovó veio me pedir para jogar tarot. Na época eu ainda jogava tarot. E era até boa nisso.

Os augúrios não foram muito positivos: vi meu tio numa encruzilhada, entre a morte e uma sobrevida. E a escolha estava na mão dele… e, pelo jogo, vi que a escolha dele pendia mais para desistir e se entregar… mas achei ruim dizer aquilo a vovó. Ao invés, pedi algum objeto pessoal dele que ela tivesse, e ela me conseguiu uma camiseta.

A magia era muito simples, e envolvia água limpa, uma meditação e uma prece a Airmid (sempre me identifiquei mais com Ela do que com o pai, Diancecht, ou o irmão, Miach), e uma árvore, no caso a minha goiabeira Suzana.

Fiz logo, aproveitando a lua, e seguindo algumas coisas que estudei, mas principalmente a intuição. Mas minha sensação, quando acabei, não foi realmente boa. Mais um jogo de tarot revelou que a escolha ainda era dele, mas a situação de sobrevida, caso ele a escolhesse, parecia um pouco melhor.

Ele viveu mais uma semana, aproximadamente. Viajamos para a casa dele duas vezes, primeiro tentando convencê-lo a vir conosco e dar entrada num hospital, depois forçando-o a vir conosco e enfiando-o contra sua vontade num hospital. Os prognósticos dos médicos não eram positivos, devido ao estado geral de saúde dele, e ele não cooperava. A quantidade de doenças diagnosticadas era tão longa que ficamos todos chocados.

Uma semana após o jogo de tarot, ele morreu. Tinha reagido ao tratamento, demonstrado melhora. Mas simplesmente se foi.

Um novo jogo de tarot, para a mãe inconsolável, confirmou a escolha que ele tinha feito.

É que a magia, embora seja uma ferramenta poderosa, capaz de nos ajudar na comunicação com forças maiores do que as nossas, para com isso interferir no meio visível, é limitada.

Falando de forma pessoal, minha opinião, minha visão das coisas: há um sentido, um ciclo, uma linha, um propósito no mundo. Após algumas experiências passadas, não vejo como meu papel interferir com esse sentido. Meu maior objetivo tem sido simplesmente compreendê-lo e, acima de tudo, harmonizar-me com ele.

O resto é devoção, prece, pedido. Que será atendido se for o que deve ser.

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