Arquivo mensal: janeiro 2012

Vigésimo quinto dia: Pisando Leve

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No meu entender, “pisar leve” tem a ver com “não deixar marcas”. Me faz pensar imediatamente em redução de peso ou impacto, me faz pensar no elfo Legolas saltando sobre a neve enquanto os demais membros da sociedade cavavam seu caminho, afundados nela.

Bem, filosoficamente falando, na minha opinião não deixar marcas é impossível. Tudo o que fazemos ou dizemos tem algum impacto, e deixa alguma marca no mundo e naqueles que conosco convivem. Um bom exemplo, para mim, seria justamente esses 30 Dias Druídicos. Endovelicon começou a corrente, e teve tempo de terminar os 30 dele antes que outra pessoa começasse. E então, Wallace começou. E eu comecei, e Rodrigo começou, e então outros também começaram. Foi mais ou menos como acontece quando uma folha seca cai na superfície de um lago de águas paradas: criou-se uma onda, pequena a princípio, mas que foi ampliando-se e ampliando-se, até tomar o lago inteiro. “Nossa floresta cobrirá o planeta”, eu disse ao Endovelicon em um comentário, mas é assim mesmo que as coisas funcionam – cada árvore produz muitos frutos e cada fruto contem em si a semente que promete uma nova árvore.

Ainda falando dos 30 Dias Druídicos, agora falarei sobre o específico, sobre este blog, estes 30 dias que eu estou fazendo. Para começar, só consigo falar de mim mesma, da minha experiência e de como o tema aplica (se é que se aplica) na minha vida cotidiana. Vários motivos. Primeiro, porque para mim religião é algo que você vive, não algo que você tem. Então, se você não consegue traçar paralelo entre ela e a sua vida, algo não está funcionando como deveria. Segundo, porque não me sinto segura para fazer afirmativas generalizadas, dar conselhos ou instruções, ou expressar verdades: eu só posso falar do que eu vi, vivi ou senti, do conhecimento que fui testemunha, e tentar explicar como foi que ele me chegou. Mais do que isso estaria além do meu alcance.

É que (como já disse lá no primeiro post deste blog), eu não me considero Druida (e nem acho que essa palavra tenha lugar no nosso contexto social), e não me considero Barda, embora goste de escrever e estude lá meu violino. Também não me considero Vate, por mais que jogue meu tarot e faça minhas magias ocasionais. Em todos esses grandes arquétipos, sempre me encaixei no aurrad, no membro da tribo – aquela pessoa comum, simples, que faz a sua parte, que produz, compartilha e participa. Sou amadora e experimental. Por profissão, posso ser considerada artesã ou professora. E é isso aí. Não tenho pompa nem título nem lugar de honra. Estou ali com o povão, na meiúca da pirâmide, oferecendo humildemente minha parte do trabalho.

Mas ainda assim, o que faço cria impacto. Deixa marca. É impossível que não deixe.

Desde que comecei os 30 Dias, tenho visto pessoas variadas, de variadas esferas de convivência comigo, ex-colegas de trabalho, de rpg, de faculdade, escola, ex-alunos… virem comentar comigo a respeito das coisas que escrevo. Comentam aqui no blog, e às vezes no facebook. Mas principalmente, comentam pessoalmente ou no msn. Pessoas variadas, algumas das quais nem sabiam meu caminho espiritual (sou discreta quanto a isso normalmente), que vem comentar coisas que eu escrevo, concordando, discordando ou pedindo mais informações. Uma amiga me fez o coração inchar de felicidade quando disse que, lendo o que eu escrevi, ela compreendeu certas coisas na mente dela, que meus textos a ajudaram. E eu nem ao menos divulgo tanto assim! Eu posto aqui e vou ali no facebook colar o link, e fica por isso mesmo. Mas, mesmo assim, causa impacto. Marca.

Tudo o que fazemos marca algo ou alguém, eu tinha uma professora na Faculdade de Educação que sempre falava disso. Temos uma grande responsabilidade ao lidar com as pessoas, porque nossas palavras e ações sempre geram reações.

Pisando leve para mim não tem como se relacionar a não deixar marca, porque isso seria impossível – mas tem sim tudo a ver com que tipo de marca vamos deixar. Precisamos sempre pensar nas reações às nossas ações. Precisamos pesar palavras, escutar nossa própria voz, meditar a respeito dos nossos atos. Precisamos entender que algumas das repercussões daquilo o que fazemos ou falamos às vezes só podem ser percebidas daqui a vários anos.

Citando As Crônicas de Gelo e Fogo (porque estou viciada nesse livro): mesmo a menor das pessoas pode projetar uma longa sombra.

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Vigésimo quarto dia: Trabalho

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Nas portas de Tara conta-se que Lugh foi barrado: apenas um homem de cada profissão ou habilidade poderia ser aceito dentro dos muros da cidade. Lugh apresentou-se como guerreiro, campeão, ferreiro, bronzista, carpinteiro, bardo,… e afinal foi aceito como Samhildánach, “o de muitas habilidades”.

Antes de mais nada eu gostaria de apontar que este post está atrasado uns três dias… ironicamente, por causa do trabalho. É que, nesta semana e na próxima, estou passando por um treinamento um tanto puxado por lá. Embora eu esteja amando o treinamento, ele é mentalmente cansativo, por consistir num conteúdo muito grande a ser assimilado em pouco tempo, sem contar que o tempo de treinamento de fato consome muitas horas. Minha jornada de trabalho tem sido em média de dez ou onze horas por dia. Aí é perfeitamente natural que fique difícil sentar aqui na frente do computador e inspirar-me o bastante para escrever o que quer que seja… mas, ao mesmo tempo, é um momento particularmente perfeito para falar-se de trabalho. Afinal, este tem consumido a maior parte da minha vida.

Como já mencionei aqui, trabalho como professora em um curso de inglês. É um trabalho muito significativo e do qual tiro muita realização pessoal. E, ultimamente, bastante realização profissional, também. Mas vamos por partes.

Vim parar nesse papel de professora de inglês quase que ao acaso: minha formação oficial é Licenciatura em Educação Artística, e a única razão pela qual sequer tentei enviar meu currículo para um curso de inglês foi uma mistura curiosa de falta de opção (na época, meados de setembro, era impossível conseguir trabalho em uma escola comum) e de segurança adquirida com experiência (é que por acaso meu último trabalho tinha sido dando aula de artes em inglês, numa escola bilingue). Escolhi o curso onde trabalharia também muito aleatoriamente: achei que a relação pagamento x horário parecia melhor do que a de um outro curso que também me chamou após a entrevista.

Mas estou apaixonada. Apaixonada pelo método, pela empresa, pelas pessoas, pela filosofia… por tudo. Tanto no micro quanto no macro, tudo lá bate com minhas crenças e ideais, encaixa e funciona. É tão bom que me faz me perguntar se não tem nenhuma pegadinha ali… porque ainda por cima, tenho obtido lá o que todo profissional mais sonha obter: reconhecimento. E é precisamente por conta desse tal de reconhecimento que minha vida tem sido um caos e um caos continuará sendo pelos próximos onze dias… é que fui convidada para ser coordenadora do meu branch. E, por isso, preciso de um extenso treinamento.

Para os Celtas (bem como para vários outros povos, antigos e atuais), o trabalho não é simplesmente uma atividade realizada para a subsistência – o trabalho, a função que exercemos no mundo… é o que nos define.

Sou professora. Antes de mais nada e depois de tudo. Eu me sinto professora, desde a primeira vez em que pisei em uma sala de aula, olhei em volta e vi os rostos dos alunos voltados na minha direção. Professora de artes, professora de inglês, tanto faz. Ensinar é o que dá sentido à minha vida, e acho que sou abençoada de poder exercer a profissão da minha alma.

Mas existem outras funções com as quais me identifico… por exemplo, desde pequena sonhei ser escritora. E amo escrever, e estou sempre escrevendo. Seja um texto para este blog, seja um conto, seja uma ação de rpg play-by-forum, sempre invento algo para transformar em letras e palavras. Quando deixo de escrever por um dia, sinto uma falta imensa, e creio que seria muito feliz como escritora. Mas, até o presente momento, não foi para este caminho que a vida me levou…

No clã minha função também é bem definida: sou artesã. Desenho, pinto, tranço, costuro, modelo. E, quando não estou produzindo, estou ajudando a produzir, ou ao menos dando sugestões e oferecendo estratégias de acordo com a minha experiência como estudante de artes plásticas. Sempre me vejo sentada a um canto de pincel, durepoxi ou barbante na mão, e essa visão me dá uma sensação boa, de propósito, de significar algo, de ser alguém. É a atividade, me definindo. Você é o que você faz.

Ter um lugar no mundo. Sentir que suas ações geram reações positivas, desejáveis. Ter um significado, um propósito. Ser uma peça no grande quebra-cabeça das funções.

Possuir um trabalho, uma finalidade, uma atividade, uma habilidade é, afinal de contas, ser alguém. Pergunte só a Lugh, o Samhildánach.

Vigésimo terceiro dia: Comunidade

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Hoje, após a aula, e após minha descrição de como ontem depois de sair do trabalho tarde da noite ainda fui beber com os amigos no pub e que por isso dormi pouco mas, como sou ligada no 220, fui trabalhar cheia de energia mesmo assim, um aluno disse que essa não era a impressão que ele tinha de mim. Ele disse que, pelo meu comportamento em sala de aula e pelo meu modo de me vestir, eu parecia calma, tranquila, e até religiosa. Eu ri e retruquei “ah, mas eu sou muito religiosa”, e ficou por isso mesmo. Mas só depois do que eu disse, percebi que não foi bem o que ele quis dizer. Ele olhava para a minha saia longa quando falou, e me dei conta que ele provavelmente tinha dado a entender que achava que eu talvez fosse evangélica, sei lá. (Me senti um cadim ultrajada e nunca mais uso a exata combinação de peças de roupa que usei hoje, mas isso é outro papo).

Não gosto de falar de religião, a verdade é essa. Normalmente, quando desconhecidos perguntam minha religião, eu desconverso. Digo, na lata, que não gosto de falar de religião, desvio o assunto e convenço meu interlocutor de deixar para lá. Gosto de conversar de religião com pessoas próximas, que considero amigas, e, de preferência, que compartilhem minhas crenças. É que é muito cansativo discutir com aqueles que não compartilham.

Certa vez uma mulher começou a gritar comigo num salão de cabeleireiros porque eu comentei que não sou cristã (e olha que nem cheguei perto de especificar como ou porque). Mas essa situação, apesar de desagradável, foi bastante insignificante. Significativo mesmo foi o comentário que um amigo meu, pagão, fez, quando relatei o ocorrido no facebook: ele disse que cair num silêncio envergonhado diante desse tipo de coisa é trair a causa. Ele não usou exatamente essas palavras, mas foi como a opinião dele chegou ao meu entendimento – nossa religião é bastante desconhecida. Somos minoria, em um mundo onde infelizmente a intolerância religiosa (e desrespeito às diferenças em geral) é a regra, não a exceção. Se nós nos fechamos, silenciamos, mantemos silêncio sobre quem somos, sobre nossa existência e nosso direito de existir e exercer nossas práticas e nossa fé conforme desejamos… talvez nunca tenhamos um lugar nesse vasto mundo intolerante.

Sei lá. Nunca me considerei uma ativista. Por mais que eu esteja ao lado de uma causa, meu caminho de escolha nunca foi o de militante, e sim de consciente. Sou mais aquela que lê, informa-se e procura compreender e conscientizar-se para os problemas e questões, para depois divulgar boca a ouvido para os mais chegados, despertando nesse círculo mais próximo essa mesma conscientização. Minha postura religiosa acaba sendo mais ou menos a mesma… mas cheguei a um ponto em que questiono, honestamente, essa postura.

Há um tempo atrás, após conhecer pela internet um casal composto por um FTM e uma genderqueer, tive minha consciência despertada para a questão de gênero. Quem me conhece sabe o quanto andei obcecada com isso, lendo a respeito das dores, dificuldades e características próprias do caminho daqueles que não se encaixam nos rótulos estabelecidos de “macho” e “fêmea”, diferenciados biologicamente e determinados pela sociedade. Minha sensação, lendo manifestos e depoimentos, foi de que minha mente tinha sido aberta, como um quarto muito tempo fechado é aberto para a entrada do ar puro e da luz do sol. Compreendi muitas coisas, percebi tantas outras, mudei toda a minha percepção de gênero…

Entre tudo o que li, uma das coisas que mais me marcou foi um artigo que falava a respeito da militância transgender. Ao contrário do movimento gay, que cresce, aparece, tem cada vez mais voz, mais defensores, com paradas e propaganda, e sites… o movimento transgender é pequeno e pouco expressivo, com militantes que facilmente abandonam a luta: é que, via de regra, os transgender mantem-se ativos no movimento apenas enquanto não conseguem ter seu gênero legalmente modificado. Depois que conseguem o que queriam e sua aparência física coincide completamente com sua identidade de gênero, eles normalmente desaparecem do movimento… vão viver suas vidas como homens e mulheres comuns, pois não querem mais ser reconhecidos como transgender – querem ser simplesmente “pessoas normais”, mais um na multidão, trabalhando, estudando e construindo família.

Por que estou falando disso tudo? Bom, porque embora atualmente tenhamos um número grande de pessoas que conhecem a causa gay e começam a compreendê-la e até a aceitá-la, pouquíssimas pessoas compreendem a causa transgender. Muita gente simplesmente fala que “é tudo travesti” e, mesmo aqueles que são esclarecidos e aceitam diversidade sexual, racial e religiosa, ainda torcem o nariz para aqueles que desejam mudar de sexo. E isso me faz me perguntar.

Muitas pessoas que seguem esse nosso caminho, o Druidismo, são extremamente discretas, assim como eu, preferindo não se expor, não esclarecer, não “sair do armário de vassouras”, conforme colocou Endovelicon. Só os Deuses sabem como foi difícil para mim (foi e está sendo) o esforço de me expor dessa forma ao fazer os 30 Dias Druídicos, porque, apesar dos muitos sentimentos positivos e percepções preciosas que me acometeram ao longo da estrada, não consigo deixar de me sentir mal até certo ponto, exposta, vulnerável… ah, é um sentimento difícil de explicar. Acho complicada a ideia de falar para as pessoas, como por exemplo para o meu aluno de hoje, que pensou que eu sou evangélica, que sigo uma coisa chamada Reconstrucionismo Celta (ou Druidismo, ou Aurrad, o nome pouco importa). Não quero que me olhem torto, criem concepções erradas ou gritem comigo como a mulher do salão de cabeleireiros. Quero, como os transgender bem-sucedidos, simplesmente seguir minha vida adiante, sem ser “marcada”, sem sofrer preconceito.

Mas de uns tempos para cá, durante os 30 Dias, e após observar e pensar, e entender e questionar… começo a achar que minha postura não está ajudando. Quer dizer, talvez esteja ajudando a mim, a me encaixar e não sofrer constrangimento… mas certamente não está ajudando à causa.

Quantos somos no Brasil? A comunidade de Reconstrucionismo no Orkut costumava ter uns 400-500 membros (se é que algo assim serve de parâmetro), e eu não sei dizer se todos esses eram de fato do RC ou do Druidismo, e não sei se o número, de lá para cá, cresceu ou diminuiu. Não sou boa com números e, mesmo que fosse, não disponho das ferramentas para medir algo assim. Mas… mesmo assim, somos poucos. Muito poucos, absolutamente. Se colocarmos a coisa em termos relativos, para a estatística nós sequer existimos.

É complexo. Não somos centralizados. E a maioria de nós prefere permanecer em silêncio. Não acho que erguer a voz deva ser algo exigido, ou até mesmo pedido. Ninguém deve dar o que não se sente pronto a dar. Mas… não posso deixar de pensar que, se já somos poucos e tantos de nós guardam silêncio… quem ouvirá a nossa voz?

(É claro que também não sei até que ponto nossa voz ser ouvida é assim tão importante, mas… isso já é outro questionamento. Como sempre, tenham paciência comigo. Ser incoerente está na minha essência.)

Vigésimo segundo dia: Família e Amigos

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Lugh, chamado Lamhfhada (“braço longo”), ou Samhildánach (“de muitas habilidades”), é um dos deuses irlandeses mais proeminentes, conhecidos e reverenciados. Não fugiu à minha observação (e de ninguém, de fato) o fato de que seu pai, Cian, é um Tuatha Dé Danann, e sua mãe, Ethniu filha de Balor, é uma Formorian. Fazendo-o descendente de ambos, os recém-chegados e os que lá já estavam. A habilidade e a matéria prima. A tribo e a terra. Mas o rito mais famoso sagrado a Lugh e que recebe seu nome é em honra a Tailtiu dos Fir Bolg, sua mãe adotiva. Laços familiares são claramente valorizados pelos celtas em tudo o que se encontra a respeito deles (o que mais esperar de um povo cujo núcleo é o clã?), mas a esta conta inclui-se facilmente aqueles adotivos, de consideração.

Isso posto, não falarei hoje a respeito da minha família de sangue, que muito valorizo e amo (e da qual já falei em vários posts). Falarei, ao invés, da adotiva, que para mim possui um valor semelhante.

Falarei do nosso clã.

Somos, aparentemente, um grupo de amigos como qualquer outro. Bebemos juntos, rimos juntos, discutimos longamente assuntos em comum, bebemos juntos, fazemos planos juntos, comemos juntos, bebemos juntos, gritamos uns com os outros, e fazemos provas de natação sem sentido quando bêbados (e já mencionei que bebemos juntos?). E, dentro do grupo, há aqueles que fazem também juntos oito rituais ao ano.

Para os olhos dos outros, somos um grupo de amigos apenas. É comum que associem automaticamente uns aos outros, porque nos encontramos com frequência, a um ponto em que já ocorreu de eu ser imensamente bem tratada por um completo desconhecido só porque ele sabe que sou desse grupo, e ele é amigo de alguém de lá (e isso já ocorreu várias vezes). Mas, aos olhos de quem está de fora, somos simplesmente amigos. Grupos de amigos, mesmo grupos tão unidos e com membros tão próximos, são até bem comuns. Mas, como disse Saint-Exupéry: o essencial é invisível aos olhos.

Somos um clã, uma família. Temos uma matriarca que nos mantém unidos, oferece a hospitalidade da sua casa, sendo anfitriã da maioria esmagadora de encontros, grandes e pequenos. Ela nos telefona para saber como estamos, lembra-se de aniversários, formaturas e casamentos, dá apoio em doenças e perdas. Ela é a nossa cola, inegavelmente, ou melhor dizendo, nosso coração, como a lareira de Bríd é o coração de um lar.

Seu marido é um bardo, de flauta hábil, riso fácil e grandes conhecimentos, confiável e disponível, sabendo quando brincar e beber até cair, e quando falar com seriedade e sensatez a respeito de qualquer assunto, em particular os referentes ao clã. Quando os dois viajaram por um mês ficamos todos perdidos. Como nos encontraríamos? Esquecemos como se usa o telefone e o e-mail. Foi como se um inverno europeu enchesse de neve as nossas portas, nos forçando à reclusão. Quando eles voltaram, o sol saiu e pudemos nos ver novamente.

Temos dois grandes guerreiros que, embora sejam muito diferentes em estatura física, são igualmente grandes no valor. Corajosos, sensatos e de bom coração, há quem diga que são parecidos, e até são um pouco. Ambos são honestos, hábeis, confiáveis. Qualidades em comum. Os dois são bons para pedir conselhos ou apoio. Mas são diferentes, é claro, como todos somos. Na verdade, são muito diferentes, como a espada e a lança são diferentes. A diferença entre eles é a diferença entre um bodhrán e um violão: cada um possui seu estilo, seu método, sua aparência, sua função, sua sonoridade… mas os dois fazem música, e, quando juntos, são imbatíveis.

Nossa mulher sábia é facilmente reconhecida pelos seus olhos profundos e seu sorriso atento. Ela observa e percebe, atravessando carne e osso até chegar na alma. Esse olhar certeiro permanece ali mesmo enquanto ela ri, bebe e brinca como todos nós, provando dos quitutes maravilhosos da sua cozinha. Uma piada, uma tolice, uma gargalhada… e então um piscar de olho sabido, como se ela tivesse lido a sua mente. Um sorriso de entendimento, como se cada pequeno gesto fosse um ato de magia. Eu sempre a vejo sorrindo, quando fecho os olhos.

A que está sempre dançando, leve e pequena, é nossa fada. Seu rosto angelical e seus sorrisos de menina enganam, porque ela é forte, decidida e cheia de ideias. Fala muito, pulando de um assunto ao outro como um vento que passa, ou uma chama que agita-se. Eu a vejo sempre dançando e saltando de um pé para o outro, leve e delicada, os cabelos e a saia rodada pulando junto. Ou então, de arco na mão e violino no ombro, ou flauta na boca, dizendo que tudo é possível, basta persistir.

Observando muito e geralmente em silêncio está nosso vate. Conhecedor de ervas, animais e dos galhos de Ogham, é ele também nosso professor de gaeilge. Vejo-o como o interior da terra ou o fundo do mar, onde raízes aprofundam-se e água brota cristalina em poços, ou onde cantam animais desconhecidos e escondem-se mistérios subaquáticos. É bom para pedir conselhos ou vislumbres do futuro, e também para discutir tudo aquilo que é de natureza etérea, espiritual, ou práticas e construções concretas para Deuses e espíritos.

Com sua bela voz a erguer-se em brindes e canções é fácil identificar nossa Áes Dána. Capaz de tocar muitos instrumentos e contar várias histórias, é comum vê-la de violão na mão e olhar atento para perceber quem precisa de ajuda e de cuidado. De tudo faz um pouco: artesanato, sugestão de ideias, música, montagem de barracas, oferta de ombro amigo, culinária… e o truque dela é muito simples, mas fundamental – partes iguais de boa vontade e disponibilidade.

Mencionei oito, mas oficialmente somos quinze (e bem mais que isso, se contarmos os queridos agregados). Passaria muitas e muitas horas falando de todos, belas mulheres de talento e dedicação, fortes homens de habilidade e conhecimento. A fadinha uma vez me disse, com uma espécie leve e alegre de sabedoria que lhe é muito própria: “Juntando todo mundo desse grupo a gente faz qualquer coisa, se fosse usar pro mal seríamos excelentes criminosos! Ainda bem que é todo mundo do bem!”

Ao todo um grupo misto, cada um com sua origem, sua história e sua voz. Mas unido por um laço que ultrapassa sangue, origem, história, tudo. Às vezes paro e olho em volta, cada um falando e gesticulando e expressando suas personalidades como estrelas emitem luz… e sinto uma coisa forte no peito, uma mistura de orgulho e gratidão… porque faço parte disso.

Vigésimo primeiro dia: Vida Consciente

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Por dois anos trabalhei em uma escola como professora de arte. Eu dava aula para mais de 150 alunos, de todas as idades entre 6 e 17 anos. Meus mais novos estavam sendo alfabetizados enquanto meus mais velhos estudavam para o vestibular. Eu gostava demais dos alunos, sendo eles o lado bom do trabalho. Mesmo quando se comportavam mal ou não se dedicavam, mesmo quando às vezes me davam uma resposta atravessada ou criavam uma situação ruim… a própria convivência, a troca, o carinho, a construção daquele vínculo entre eu e eles era muito feliz.

Tudo tem características boas e características ruins. Não gosto de me reter muito nas ruins, mas posso dizer que, no caso dessa escola, elas eram em grande quantidade. A filosofia da escola não batia com a minha filosofia pessoal, e constantemente eu me sentia forçando a mim mesma a fazer algo com que não concordava. O volume de trabalho era extraordinariamente grande, excessivo para uma pessoa só dar conta, mesmo que essa pessoa tivesse apenas aquele lugar para dedicar-se. Acertos dificilmente eram reconhecidos e muito menos recompensados, enquanto que erros eram apontados constantemente e algumas das críticas beiravam a humilhação. Colocando tudo na balança, o bom e o mau, o saldo fica negativo… realisticamente falando.

Com o tempo, todos os aspectos negativos foram pesando tanto em mim que meus pensamentos giravam em torno de duas coisas: lembranças de coisas ruins que tinham acontecido e preocupações com tarefas árduas e muitas vezes indesejáveis que estavam por vir. Eu vivia estrangulada, entre um passado ruim e um futuro indesejado, olhando de um para o outro. Não é surpresa nenhuma que eu vivesse também doente.

As doenças eram variadas, de gastroenterite a pneumonia, passando por otite, afonia, gripes mil, conjuntivite e alergias. Pela primeira vez na vida tive sinusite. Pela primeira vez na vida me apareceram cabelos brancos.

E tudo isso, as doenças, o stress, as preocupações, o trabalho desumanamente intenso, os aborrecimentos e sapos engolidos… tudo isso me afastou bastante da religião. Faltava rituais com frequência, muitas vezes limitando-me a fazer uma curtíssima prece quando me dava conta, ao escrever a data no quadro da sala de aula, que aquele era um dia especial.

Não é nenhuma surpresa que as coisas começaram a dar errado umas em cima das outras. E não estou dizendo que é “punição divina” ou alguma espécie de magia ou maldição. É, antes, uma questão de ótica. Ou de causa e efeito.

Se eu tivesse, ao invés de me violar cotidianamente para cumprir com o trabalho, sido sincera comigo mesma e com meus empregadores e pedido ajuda, alguém para dividir o trabalho, ou até mesmo ido procurar alguma outra coisa, não teria passado pelas noites de trabalho desumanamente excessivo. Se eu tivesse me concentrado nos alunos que eu tinha diante dos meus olhos sempre, valorizando aquela relação da qual hoje sinto saudade, não teria me consumido tanto pelas lembranças de humilhações passadas e pelos fantasmas das exigências futuras. Se eu tivesse mantido meu centro, minha paz aqui dentro, dando valor ao que valor possui, não teria me desequilibrado tanto, e ficado tão doente. Se eu tivesse feito um esforço, não teria me afastado da minha espiritualidade, que é algo que me faz tão bem.

Muitos “se”, e é claro que “o ‘se’ está morto e enterrado”, como diria um amigo meu, mas acho importante encarar as coisas desse modo. Às vezes entramos em situações cujas características ruins superam em muito as boas, e temos que tomar muito cuidado para não nos vermos vitimizados pelas circunstâncias. É importante sabermos assumir a responsabilidade, sobre nós mesmos, nossos atos, nossas escolhas e nossos destinos. Observar como nossas ações nos levaram à situação onde chegamos, até porque só assim podemos aprender a agir diferente em uma situação semelhante no futuro. E, acima de tudo, tentar compreender que situações difíceis também são importantes. Elas ensinam, elas criam defesas, elas abrem portas, elas nos fazem crescer.

Apesar de todos os “se” que listei ali em cima, eu não mudaria nada. Apesar do sofrimento, eu não apagaria aqueles dois anos da minha vida. Aprendi tanta coisa, conheci tantas pessoas, adquiri tantas habilidades… e até hoje, mais de um ano depois, ainda recebo recados carinhosos no facebook, ainda sou adicionada, procurada, querida pelos meus ex-alunos. Isso prova que, de fato, é das nuvens mais escuras que cai a água mais limpa.

De uma coisa tenho consciência: se eu estiver em uma situação semelhante à que estive nessa escola onde trabalhei, minha atitude será diferente, a experiência será completamente diferente. Porque eu cresci. Meus olhos estão abertos. Olha com os olhos e ouve com os ouvidos, disse Syrio Forel a Arya Stark durante suas aulas de dança em Guerra dos Tronos. Digamos que a vida é como um grande amigo oculto: só ganha presente, no presente, quem está presente.

Vigésimo dia: Oração

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Eu venho de uma família muito unida, do tipo que chega junto, ajuda, apóia, comparece a casamentos e funerais, almoços de domingo e longos telefonemas. E, mesmo quando o cotidiano complicado, as obrigações da vida impedem maior contato, notícias são sempre passadas. Está-se sempre falando de quem mudou de emprego, quem terminou o namoro e quem resolveu que não vai mais viajar para Fortaleza. Quando era viva, minha avó com as duas irmãs mais novas eram tão envolvidas nessa rede de informações que chamávamos de triângulo de reportagem, em que informações completas eram passadas pelo telefone todos os dias, para depois serem mencionadas para os demais moradores da casa no almoço ou no jantar. Quando minha irmã mais velha casou, minha mãe sofreu muito a saudade. E, quando foi minha vez, ela não estava nem um pouco mais acostumada à ideia: sofreu tudo de novo, igualzinho.

Mas ajudou. Casar teria sido muito difícil sem a ajuda da família como um todo, aliás. Herdei do quarto da minha avó metade dos móveis da sala. Minha mãe, minha sogra e meu primo (padrinho de casamento) mobiliaram meu quarto de casal. Minha prima (e madrinha de casamento) foi quem me deu a geladeira. Minha irmã deu o fogão. Minha tia, a máquina de lavar. E assim foi. Uma ajuda gigantesca, porque rapidinho, quando olhei em volta, a casa estava montada. Eu podia cozinhar, gelar bebidas e lavar roupa. Tínhamos mesa para comer, cama para dormir e armários e estantes para guardar nossas muitas tralhas. Foi quase mágico, uma coisa meio Fada Madrinha, meio Mary Poppins. Um dia o apartamento está vazio, no seguinte, cheio e confortável. O apartamento em si também é algo a se agradecer à família, aliás, a família do meu marido: pertencente a um tio-avô, foi conseguido com a ajuda do avô dele, que desenrolou os termos do aluguel com o irmão.

Hoje em dia eu tenho minha vidinha estruturada aqui, no meu apartamento. E juro que toda vez que lavo a roupa, lembro da minha tia que me deu a máquina e penso nela com amor. Ocasionalmente, quando vejo que a geladeira (que é muito boa) gelou rapidinho um refrigerante ou uma cerveja, penso em como minha prima foi maravilhosa em me ter dado aquele presente caro e tão essencial. Outro dia, tomando toddy numa caneca, comentei com um amigo que aquela caneca eu ganhei da Érika, uma amiga querida, no meu chá de panela, e pensei com carinho nela. Eu sempre lembro quem deu o que, seja do enxoval, do chá de panela, às vezes uma miudeza, um pano de prato, um abridor de latas… eu lembro das pessoas, família e amigos, que me deram aquilo. E fico muito grata a eles…

É claro que nem tudo são flores. De vez em quando rola um probleminha comum e cotidiano (tipo a confusão com o cartão de crédito que me fez vários fios brancos no cabelo e me fez jurar que nunca mais terei cartões de crédito na vida), e às vezes não consigo resolver sozinha. Aí toda a minha maturidade de dona de casa desaparece e eu ligo chorando pro papai. Papaaaai, socorro!!! Ou então, para a mamãe. Ou para a titia ou para a prima querida. Conto minhas mazelas, muitas vezes pedindo solução ou favores, mas normalmente só desabafando mesmo. E eles ajudam. Família é pra essas coisas. Família… é tudo. São aquelas pessoas, que possuem ou não o seu sangue (porque sempre levo em consideração os amigos mais próximos, aquela família que a gente escolhe), mas que estão lá, uma rede de segurança… aquelas pessoas que são como você, que têm o seu amor, o seu respeito e a sua lealdade, e por quem você faria qualquer coisa, e às vezes até tem oportunidade de retribuir… com quem você também briga, se revolta e se frustra, só para depois perdoar tudo, porque de fato… o que vocês têm é infinitamente maior do que a causa da chateação.

Falei tudo isso para dizer que essa é a relação que eu tenho com os meus Deuses. É, eles são a minha família. Só que eles me deram muito mais do que só uma geladeira ou um guarda-roupa. E, do mesmo modo que eu não consigo beber uma água gelada sem agradecer mentalmente minha prima, não consigo deixar de admirar a Pedra da Gávea em todo o seu esplendor diante da janela do meu trabalho e não agradecer mentalmente aos Deuses. Também procuro a proximidade com os meus Deuses, em rituais, meditações e pequenos momentos diante do altar, do mesmo modo que visito minha mãe para o almoço de domingo. Também converso com eles, e procuro conhecê-los melhor e sentir sua presença e suas mensagens, do mesmo modo que procuro visitar meus amigos mais queridos para colocar o papo em dia. Também peço socorro às vezes, muitas destas desesperadamente, chorosa e confusa como eu consigo ser, contando o problema e esperando uma ajuda, ou simplesmente desabafar. E também, por fim, tento dar um pouco do que recebo, através de oferendas e agradecimentos, do mesmo modo que abraço apertado familiares e amigos, ou lhes compro presentinhos.

A única diferença é que eu posso visitar amigos e familiares, ou encontrar com eles em um lugar marcado. Os Deuses estão sempre comigo, e basta pensar Neles para sentir Sua presença. Para falar com familiares e amigos eu uso o telefone, o facebook, o msn, o skype, ou o bom e velho tête-à-tête, quando a vida permite.

Para falar com os Deuses, eu uso a oração. (:

Décimo nono dia: Magia

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Ele já estava doente há bastante tempo, a verdade é essa. Doente por dentro e por fora, desde um acidente de carro ocorrido anos antes em que tinha perdido a orelha, desde que seu casamento acabou, anos antes, e a ex-mulher arrumou um namorado. Há anos que ele bebia demais, se amargurava demais, maldizia demais. E vovó estava muito preocupada quando veio me procurar: era o filho dela, afinal de contas. O caçula. Ela o amava imensamente. Todos nós o amávamos.

Naquela semana ela ficou sabendo que ele levou um tombo, tinha passado a madrugada deitado no chão na beira da estrada, diante do portão de casa, e não tinha tido forças para dar aqueles poucos passos até o abrigo. Ele morava em outra cidade com os filhos ainda meninos, longe de todos nós. Preocupada e sem conseguir arrancar dele pelo telefone a verdade, vovó veio me pedir para jogar tarot. Na época eu ainda jogava tarot. E era até boa nisso.

Os augúrios não foram muito positivos: vi meu tio numa encruzilhada, entre a morte e uma sobrevida. E a escolha estava na mão dele… e, pelo jogo, vi que a escolha dele pendia mais para desistir e se entregar… mas achei ruim dizer aquilo a vovó. Ao invés, pedi algum objeto pessoal dele que ela tivesse, e ela me conseguiu uma camiseta.

A magia era muito simples, e envolvia água limpa, uma meditação e uma prece a Airmid (sempre me identifiquei mais com Ela do que com o pai, Diancecht, ou o irmão, Miach), e uma árvore, no caso a minha goiabeira Suzana.

Fiz logo, aproveitando a lua, e seguindo algumas coisas que estudei, mas principalmente a intuição. Mas minha sensação, quando acabei, não foi realmente boa. Mais um jogo de tarot revelou que a escolha ainda era dele, mas a situação de sobrevida, caso ele a escolhesse, parecia um pouco melhor.

Ele viveu mais uma semana, aproximadamente. Viajamos para a casa dele duas vezes, primeiro tentando convencê-lo a vir conosco e dar entrada num hospital, depois forçando-o a vir conosco e enfiando-o contra sua vontade num hospital. Os prognósticos dos médicos não eram positivos, devido ao estado geral de saúde dele, e ele não cooperava. A quantidade de doenças diagnosticadas era tão longa que ficamos todos chocados.

Uma semana após o jogo de tarot, ele morreu. Tinha reagido ao tratamento, demonstrado melhora. Mas simplesmente se foi.

Um novo jogo de tarot, para a mãe inconsolável, confirmou a escolha que ele tinha feito.

É que a magia, embora seja uma ferramenta poderosa, capaz de nos ajudar na comunicação com forças maiores do que as nossas, para com isso interferir no meio visível, é limitada.

Falando de forma pessoal, minha opinião, minha visão das coisas: há um sentido, um ciclo, uma linha, um propósito no mundo. Após algumas experiências passadas, não vejo como meu papel interferir com esse sentido. Meu maior objetivo tem sido simplesmente compreendê-lo e, acima de tudo, harmonizar-me com ele.

O resto é devoção, prece, pedido. Que será atendido se for o que deve ser.