Arquivo mensal: dezembro 2011

Nono dia: Ancestrais

Padrão

Há dois meses atrás eu fui na ginecologista porque estava sangrando muito, uma coisa anormal, fora de época e que nunca tinha me acontecido antes. Após alguns exames, para encurtar o assunto, foi identificado um pólipo dentro do meu útero, e era por causa dele que eu sangrava tanto. O pólipo é um tumor benigno (pelo menos na grande maioria das ocasiões), que não tem nenhum risco de morte, nem traz nenhum grande problema (exceto talvez o sangramento e, é claro, o fato de que sou jovem e quero ter filhos, e o pólipo dificulta muito nessa empreitada em particular), mas tinha que tirar. Após mais alguns exames e consultas, a médica marcou a cirurgia: dia 28 de Novembro.

Não me fugiu à percepção de que o dia seguinte, 29 de Novembro, seria o aniversário da minha avó, falecida em 2008.

Minha avó me criou. Até os 12 anos, dormi na mesma cama que ela, e depois pulei para a cama de baixo da bicama, e dividi quarto com ela até os 19, quando me mudei para o quarto ao lado. A morte dela, há três anos atrás, foi um enorme baque na minha vida. Não foi o primeiro familiar que perdi, nem o primeiro enterro a que fui, mas foi a primeira vez que, para mim, a morte mudou tudo.

Assim que recebi a data da cirurgia, rezei muito para a minha avó. Quando eu ficava doente, era sempre ela quem cuidava de mim, fazia um chazinho ou um mingau de chocolate e me punha no colo, e a doença sumia. E eu fiquei querendo tanto aquele colo… querendo tanto que ela estivesse ali, para segurar minha mão…

Conforme foi chegando o dia 28, eu sentia a vóinha cada vez mais perto. Pensava nas coisas que ela achava graça, e isso me deixava forte. Na semana antes da cirurgia comprei uma banana split, sobremesa favorita dela, e propus rachar com ela, comermos juntas. Cada colherada de sorvete com banana era como se ela estivesse mais viva, mais presente. Fui me sentindo mais forte, sabendo que ela ia ficar junto, e não ia deixar nada dar errado… no dia da cirurgia, fui para o hospital usando uma camiseta que tinha sido dela, e já estava bem mais confiante. Do jeito que vovó é, não vai deixar ninguém fazer besteira com o meu corpo, vai ficar de olho!…

Eu tenho um cantinho do altar reservado aos Ancestrais, e lá eu coloco principalmente fotografias e às vezes até objetos pertencentes a familiares já falecidos. Tenho coisas de vóinha, mas também do meu tio que já se foi, do meu avô materno e dos meus avós paternos, mas também fiz símbolos para os Ancestrais mais vagos e sem nome ou rosto, cujo sangue também corre nas minhas veias.

Honro o sangue que corre em minhas veias.

A cirurgia deu certíssimo, por sinal. Vóinha ficou super de olho, tenho certeza. E depois, dividi outra banana split com ela – essa por agradecimento.

Anúncios

Oitavo dia: Divindade e Crença

Padrão

– Você acredita em Deus?

Acredito. E em Buda, Krishna, Yemanjá, Tupã, Thor, Ísis, Pachacamac, Kwan Yin, Amaterasu, Jesus Cristo… e em todas as entidades em que se deposita ou depositou a fé humana. É que a crença é uma coisa muito poderosa. A fé de milhares de pessoas ao longo de centenas (muitas vezes milhares) de anos cria uma coisa chamada egrégora. Uma egrégora é como se fosse uma concentração de energia gerada pelo pensamento, sentimento e vibração coletiva de várias pessoas, e essa concentração ganha uma personalidade, uma espécie de identidade. E ganha força.

Eu acredito em egrégora. Logo, acredito em tudo aquilo que é depósito de fé.

Mas entre acreditar e, digamos assim, ser devota, há uma diferença. Acreditar, eu acredito em tudo. Mas trazer para perto, atrair, chamar, seguir, honrar e reverenciar… olha, lembra daquela conversa sobre como a gente não tem uma explicação de porque se apaixonou por alguém? A mesma coisa. É uma coisa de identificação, de sentir que vibra dentro, ecoa dentro.

Os Celtas eram politeístas, mas seus Deuses eram em geral locais, ou tribais. Quero dizer, você pega aquela lista de trocentos e tantos deuses celtas e pensa, caramba, cada indivíduo celta cultuava todos esses??? Haja flor pra jogar no mar!!! Mas não era assim. Cada local tinha seus “favoritos”, digamos assim, cada tribo, cada clã… eles “adotavam” alguns Deuses.

E hoje em dia é a mesma coisa. No meu clã, cada um tem os seus “queridinhos”, um grupo (geralmente reduzido) de Deuses com os quais cada um de nós se identifica mais do que com os outros. E a gente nota que é uma coisa muito de personalidade, de vibração, de sentir parecido. Dá pra dizer que cada pessoa tem o Deus que merece, porque encaixa perfeitinho. Aí, o legal é quando juntamos todo mundo e cada um traz os seus para o ritual. Nesses momentos acontece de eu ter contato com uma energia que é super especial para meu companheiro de clã, mas que eu nunca tive muita afinidade… o que é sempre renovador, interessante.

Fiquei na dúvida se ia falar tanto assim, mas vá lá: meu Queridinho Número Um é na verdade Queridão:  o superlativo Daghda. Ele está sempre comigo, estou sempre com Ele, sinto uma ligação surreal. Faço para Ele oferendas de mingau de aveia com cerveja preta, às vezes um pão para acompanhar. Converso com Ele o tempo todo, chamo por Sua presença, nunca falta assunto. E nunca me falta nada, graças a Ele. (:

Além Dele, também chamo muito por Macha, Morríghan, Airmid, Bríd, Lugh e Manannán. Mas muda. Manannán, por exemplo, é uma “paixão” recente, fui encontrá-Lo só no fim do ano passado, depois de ter tirado minha carteira de navegadora na Capitania dos Portos. É impossível navegar para o mar aberto, desligar o motor da lancha em pleno oceano Atlântico, olhar em volta no meio daquela imensidão azul… e não ser completamente feita refém da grandeza do Senhor do Mar.

E acho que é assim que funciona. O relacionamento com uma Divindade é como o relacionamento entre duas pessoas. Ele é construído, estabelecido, fortificado… e, do mesmo modo, pode haver um afastamento, por que não? Vejo isso como vejo tudo: é muito orgânico, não dá pra esquematizar, nem colocar lógica. É um daqueles mistérios.

Sétimo dia: Prática Diária

Padrão

Éirím inniu agus iarraim beannachtaí ar mo dhéithe,
go raibh mé cróga mar tharbh,
go raibh mé eagnaí mar bhradán,
go raibh mé caoin mar uan.
Beannacht ar mo mhuinitir,
beannacht ar mo chairde,
agus beannacht ar mo chuid oibre.

Uma coisa que aprendi desde criança é que religião não é algo que você tem, é algo que você vivencia. Meus pais são umbandistas, pai e mãe de santo, e possuem um centro próprio. Embora sempre tenham me dado muita liberdade para crer e seguir o que eu achasse melhor, eles sempre incutiram em mim a noção de que religião é algo a ser levado a sério. Com eles não há meias medidas, não-praticantismo ou deixar por fazer: a dedicação deles sempre foi 100%, nem um dedinho a menos.

Cresci vendo-os ir ao centro várias vezes na semana, realizando uma série de rituais pequenos, mantendo um guardião na porta lá de casa com a vela sempre acesa, cantando cantigas enquanto realizavam atividades cotidianas e decorando a casa com imagens dos Orixás. Eu tinha até um certo ciúme do centro, aquele meu rival, para onde eles iam todo santo sábado, nunca reservando um que fosse para me levar ao cinema. E criança aprende através do exemplo…

Sim, no Druidismo só temos 8 rituais no ano. Pouquíssimos, se comparados à quantidade de feriados cristãos, e quase inexistentes se comparados à quantidade de rituais da Umbanda. Mas limitar toda a sua prática religiosa a menos de um ritual por mês é o equivalente a dizer que você é católico só nos batizados e missas de sétimo dia. E não, nem todo católico é assim, embora tenhamos uma quantidade meio surreal de não-praticantes nesse país.

Trabalhei dois anos em uma escola católica… a prática lá era intensa, com missa duas vezes por semana, preces todos os dias várias vezes ao dia, e um padre batendo na porta no meio da aula perguntando se algum aluno queria se confessar… o que prova que a vida religiosa católica pode ser muito mais intensa do que eu imaginaria observando a maioria dos católicos que conheci a vida inteira.

O Druidismo não é diferente. Para os Celtas não havia essa diferença que temos, um abismo entre sagrado e profano, sendo o sagrado aquilo o que vivemos dentro da igreja, do templo, da sinagoga, do centro ou do ritual, e o profano todo o resto. Cada ato cotidiano, cada passo, cada gesto, cada atividade era permeada de sagrado. Havia preces para o despertar, para o adormecer, para o trabalho, para… para tudo.

Na verdade eu vejo essa prática diária, dentro do Druidismo, mais como uma postura, um modo de encarar seu dia-a-dia, do que como atos ritualísticos específicos. Eu realizo minhas oferendas e faço minhas preces com frequência, mas não é isso que considero, por si só, como minha prática diária. Minha prática diária está no caminho para o trabalho, nas minhas conversas com meus Deuses, no momento que eu tiro para observar a luz do sol incidindo sobre a lateral de um morro, nas coisas que escrevo, nas percepções que tenho.

É claro que ter um altar doméstico, conhecer preces específicas (Carmina Gadelica tem muitas dessas), realizar oferendas com alguma frequência, tudo isso ajuda. Mas, na minha visão, o que verdadeiramente constitui vivenciar uma religião é mais uma mudança interna, de perspectiva, que, ao invés de dar à fé um momento ou mais por dia, inclui a fé em todos os momentos.

Sexto dia: Espaços Sagrados

Padrão

O portão é grandioso, verde, de ferro, e muito bem guardado por homens atentos. Ao ver nossa chegada, esses guardiões correm para abrir as portas, tomando o cuidado de contar quantos somos enquanto nos cumprimentam. Passado o portão, o caminho em nossa frente é ascendente, íngreme e serpenteante. Ele é antigo, porém bem conservado, frequentado por muitos, ladeado por árvores e arbustos tanto na direita como na esquerda. Subimos, apreciando outros visitantes que também sobem, alguns devagar, outros apressados, uns solitários, outros em pequenos grupos amigáveis.

De cada lado da estradinha é possível ver que estamos passando pelo coração de uma grande floresta verde. Contudo, em alguns pontos do trajeto, o caminho abre-se em áreas abertas e agradáveis de um lado ou do outro, onde famílias comungam com a natureza sob o caloroso sol de verão. É verão. O ar está cheio de pequenos mosquitos escuros, e uns maiores, de corpo amarelo, cujas asas zumbem alto. Borboletas cruzam nosso caminho, amarelas e dançando ao vento. Nas árvores, lá no alto, nos acompanham vários pequenos saguis, curiosos, interessados. Em determinado ponto do caminho, nos deparamos com uma enorme cachoeira à direita da estradinha. As águas, espumosas, brancas, rugem com uma força inesperada, respingando rochas imensas.

Continuamos subindo, conversando à vontade sobre o assunto que nos vem à mente, como apenas amigos de longa data conseguem fazer. Um de nós puxa uma tin whistle, e começa a tocar uma melodia alegre, condizente com o sol que rompe as nuvens lá no alto para nos tocar. Subimos e subimos, acompanhando a estradinha conforme ela vira e serpenteia, cada vez mais para o alto, mergulhando no coração daquela floresta nas alturas.

Afinal, viramos apenas mais uma curva, e chegamos ao nosso destino. Um lago tranquilo nos recebe, suas águas escuras parecendo misteriosas sob o céu azul de verão. À direita dele, um pequeno caminho tosco, com degraus feitos de madeira e terra, batidos e gastos. Subimos por ali, ainda conversando muito à vontade: estamos em casa. Árvores esparsas nos recebem numa clareira, um espaço amplo de terra, coberto de tufos de grama e pontilhado de pequenas árvores solitárias. Enquanto entramos, presenciando a corrida de uma cutia desconfiada ao ouvir nossas vozes, percebemos que aquele não é um lugar qualquer. Essa clareira, ampla, comum a uma primeira olhada, é um espaço diferente. No centro desse espaço, está uma grande estrutura de tijolos feita pelo homem, antiga e gasta, porém acolhedora. Parece-se com uma casa, só que não tem paredes, e a terra invadiu seu chão duro e liso, fazendo com que a estrutura parecesse realmente parte da natureza do lugar.

À esquerda dessa estrutura, está ela. Uma árvore gigantesca, ancestral. Imensa, de tronco grosso e áspero, com galhos erguidos para o céu em uma altura vertiginosa. Sua casca, de uma madeira avermelhada, é raiada de prateado e dourado, brilhando sob o sol. A seus pés, raízes gigantescas projetam-se do solo criando algo semelhante a uma cama, onde centenas de folhas secas, bem vermelhas, acumularam-se. De longe é perceptível que aquela árvore tem algo de especial. Uma força magnética, uma energia, uma personalidade. Ela estava ali muito antes de todas as outras, muito antes de nós, muito antes da estrutura de tijolos. Ela estará ali quando todos nós já nos tivermos ido, é a impressão clara que temos só de olhá-la. A cumprimentamos, porque é impossível não fazê-lo, e seguimos em frente, para a ponta da clareira.

Lá está uma pequena mesa de pedra, semelhante a um banco, apenas um pé de cada lado segurando uma superfície lisa, horizontal. Mas mesmo percebendo que aquela mesa é aparentemente comum, sem nada de especial, dá para sentir alguma energia diferente ali, naquela mesa e no espaço imediatamente diante dela. De alguma forma, mesmo nua daquele jeito, na ponta de uma clareira, aquela mesa… parece um altar.

Ela é o nosso altar. E aquele é o nosso espaço sagrado.

Todos no nosso clã reconhecerão não só a descrição do lugar, como o formato da narrativa. É a minha versão da que a Sisi fez no último solstício. E essa descrição, obviamente, é a do lugar onde fazemos a maior parte dos nossos ritos, um lugar que, se já não era especial por si mesmo, certamente foi tornado especial pelas energias com as quais entramos em contato todas as vezes em que estamos lá. Ao pensar em “espaço sagrado” foi aquele lugar o primeiro que me veio em mente – não Newgrange, não Emain Macha, não Tara, não o poço de Bríd em Kildare. O segundo foi o meu altar, lugar onde realizo minhas oferendas, acendo minhas velas e faço minhas preces.

A verdade é que não há um único lugar no mundo que não possua um potencial para o sagrado. A natureza é divina, e nós somos parte dela, com tudo o que construímos. O que torna um lugar sagrado é o modo como o olhamos. É literalmente o mesmo caso que com o belo – está nos olhos do observador.

É claro que um dia (espero que em breve!) quero visitar Emain Macha, Newgrange, Kildare, a nascente do Boyne, a Lia Fáil… e tenho certeza que, conforme descreveram meus sortudos amigos que lá já estiveram, sentirei toda a energia e a sacralidade do lugar. Contudo… é como dizia Dorothy, com sua sabedoria de menina: não há lugar como o nosso lar.

Quinto dia: Elementos

Padrão

Elementos. Esse foi um tema que me deixou confusa. Preciso confessar que a princípio lembrei do texto Nove Elementos, traduzido pela Luciana Cavalcanti, que após uma busca rápida agora no google achei disponível nesse link aqui. Foi no que eu pensei porque já sabia muito bem que essa noção de quatro elementos – ar, água, terra e fogo – é grega, e nada tem de celta. E não tinha noção do que seriam elementos celtas – tirando talvez Céu, Mar e Terra, que já estaria descrito em Três Reinos. Estou sendo bem honesta em relação à minha ignorância: quando fui ler o post do Endovelicon sobre os Elementos, não tinha a menor noção do que encontraria.

E conforme lia o post do Endovelicon, os pontos de interrogação foram acumulando-se: de onde saiu isso? Geeente, como eu não topei com isso antes na vida? Cliquei em um dos links no post dele, e me descobri em uma página do Imbas. A última vez em que visitei esse site faz bastante tempo, foi lá pra 2005, que foi também a época em que pesquisei mais ativamente, e foi também quando conheci a Fê, o Endovelicon, o Gustavo, entre outras pessoas com as quais aprendi muito, muito.

Fato é que já li aquela página (porque sei que revirei o Imbas todinho na época), mas também é fato que não lembro de nada daquilo. Deve ter passado batido, sei lá. E ao mesmo tempo que me censuro pela minha ignorância e sinto de novo aquele efeito “perspectiva”, que me deixa abismada pelo quanto eu ainda tenho a aprender, acho o máximo ter encontrado e aprendido algo novo na minha busca, e esse algo ser de fato relevante.

Vamos ao que aprendi:

Os elementos dos Celtas, normalmente somando nove ao todo, servem apenas para refletir e reafirmar a ligação do homem com a natureza, associando o corpo humano a matéria que compõe o mundo. Nesta página do Imbas tem uma lista de equivalências que achei bem interessante, e resolvi incluí-la aqui até como material de consulta:

1. Cnaimh (Ossos) | Cloch (Rocha) | Thuaidh (Norte) | Lia Fail (Pedra do Destino)
2. Colaind (Carne) | Talamh (Terra) | Faoi (Abaixo) | O Nemeton (Bosque Sagrado)
3. Gruaigh (Cabelo) | Uaine (Vegetação) | Amach (Para fora) | Ogham e Ervas
4. Fuil (Sangue) | Muir (Mar) | Ior, Siar (Leste) | Undry (O Insecável, o Caldeirão de Daghda)
5. Anal (Fôlego) | Gaeth (Vento) | Air, Oithear (Oeste) | Claimh Solais (A Espada de Nuada)
6. Imradud (Mente) | Gealach (Lua) | Isteach (Para dentro) | O Poço de Segais
7. Drech (Face) | Grian (Sol) | Deas, Deis (Sul) | Gáe Assail (A Lança de Lugh)
8. Menma (Cérebro) | Nel (Nuvem) | Thrid (Através) | Imbas (Inspiração)
9. Ceann (Cabeça) | Neamh (Céu) | Os Cionn (Acima) | O Torque

Eu comentei com o Ruairí que provavelmente meu post sobre os elementos pareceria-se com resoluções de ano novo, já que eu não tinha nenhuma experiência pregressa para contar, o que implicaria em uma série de projeções ou promessas para o futuro. Acabou que não saiu bem assim, em parte porque, como já devem ter percebido, sou saudosista assumida e adoro falar do passado. Mas, para garantir, aqui vão minhas resoluções de agora em diante:

Honrarei os ossos do mundo
na face áspera de cada rocha;
Sentirei a carne do mundo
na maciez fértil da terra sob meus pés;
Acariciarei os cabelos do mundo
nas folhagens verdes e vivas que brotam do solo;
Mergulharei no sangue do mundo
a cada vez que visitar as profundezas geladas do mar;
Inspirarei e expirarei o fôlego do mundo
sempre que sentir o vento fresco nas faces;
Meditarei com a mente do mundo
quando for tocada pelos raios prateados da lua;
Sorrirei diante da face do mundo
ao erguer meus olhos para o luminoso sol;
Pensarei com o cérebro do mundo
nas nuvens que assumem formas variadas diante de meus olhos;
Reverenciarei a cabeça do mundo
sempre que tiver sobre a minha o infinito céu.

Bíodh sé amhlaidh! (:

Quarto dia: Três Reinos

Padrão

“Três coisas das quais nunca se desviar: seus juramentos, seus Deuses, a Verdade”
— Tríades celtas tradicionais.

Uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar os Celtas (no ano 2000, creio eu, foi a primeira vez que lancei a expressão “Celtic gods” na busca do Yahoo, e não foi muito depois que li pela primeira vez a respeito das tríades) foi justamente o conceito de que tudo, o universo, a realidade e a existência, é tríplice. O maior símbolo disso é o An Tríbhís Mhór, o Grande Triskele, aquele símbolo de três espirais unidas no centro, que encontramos muito na arte de La Tène, e nos manuscritos irlandeses medievais.

O número três está presente em muitas coisas, não só nas tríades ou na arte: está na fé. Está em Deusas de três faces, como Bríd ou as três Morríghans. Está em presentes triplos, desejos triplos ou chances triplas que heróis, reis ou donzelas encantadas requisitam ou oferecem. Está nos três grupos invisíveis que honramos, Deuses, espíritos da terra e Ancestrais. E está na crença dos Três Reinos:  Céu, Terra e Mar.

É estranho, porque de 2000 para cá já são mais de onze anos, e nesse período de tempo li uma quantidade tão grande de textos, ensaios, livros, resumos, teses e artigos… mas me lembro completamente de quando e como foi que li a respeito dos Três Reinos pela primeira vez: foi numa mailing list chamada Creideamh, administrada por Robert Kaucher, o americano fundador da Ordem Druídica do Brasil. Eu achei a Creideamh tarde, quando ela já estava bem perto de morrer, e minha atividade lá foi quase que completamente como lurker. Mas logo que a descobri, em meados de 2004, li o arquivo de e-mails por completo, num trabalho hercúleo, salvando dezenas de arquivos *.txt, o que não só serviu como uma fonte preciosa de aprendizado, como também foi me fazendo me apaixonar cada vez mais por este caminho.

O conceito Três Reinos foi uma daquelas coisas que eu li e imediatamente pensei:  faz sentido! É a noção de que o mundo é composto por esses três espaços: o Céu, que está sobre nossas cabeças, nos ilumina e nos governa, a Terra, que está firme sob nossos pés, e nos alimenta e define, e o Mar, que permeia o mundo, e nos nutre e guia. Os três em equilíbrio são o que mantem a vida em harmonia, e a nossa função no mundo é justamente nos harmonizarmos com eles.

Há uma meditação que eu faço com alguma frequência, em particular quando preciso me centrar ou entrar em um estado de consciência mais propício para atividades religiosas, que consiste em imaginar a mim mesma como uma árvore. É muito gradual: primeiro vou sentindo minha pele endurecer, mudar de textura, e meu tronco alongar-se. Meus braços tornam-se galhos e ramos, e eu sinto esses ramos alongarem-se, afinarem-se nas pontas, bifurcarem-se e abrirem pequenas folhas verdes em forma de lâmina. Meus galhos entrelaçam-se e entrecruzam-se, estendendo-se na direção do Céu, para sentir a luz e o calor do sol, e como que beber daquela imensidão divina. Meus pés também tornam-se mais longos e ondulantes, cruzando-se e aprofundando-se, mergulhando na terra macia e cavando, cavando, encontrando afinal o frio e a umidade escura de um lençol d’água. E com minhas entrelaçadas e grossas raízes eu bebo dessa água, tirando dela tudo o que precisarei para crescer forte. O frio que sobe pelas pernas encontra-se no meu peito com o calor que desce pelos braços, criando um equilíbrio fundamental. Sinto minhas três partes com clareza: os galhos que buscam o Céu, as raízes que mergulham até encontrar um pouco de Mar, e o tronco, definido e estável, existindo na Terra e conectando os Três Mundos. Depois, quando aos poucos vou voltando a sentir minha pele, meus braços e minhas pernas, visualizando-me novamente como pessoa, sempre retorno energizada e feliz, e acima de tudo concentrada e pronta para realizar o que for necessário naquele momento.

Antes, quando eu morava com os meus pais, também mantinha três altares, um para cada Reino. O do Céu era dedicado a alguns Deuses, e lá normalmente eram feitas as oferendas dos 8 rituais do ano e acendidas velas e icensos. O da Terra era dedicado a outros Deuses e também aos espíritos, e eu costumava enfeitá-lo com pequenas estatuetas de fadas e gnomos, e flores e frutos secos, e lá eu fazia outros tipos de oferendas, no geral frutas que depois eram depositadas no jardim. O do Mar, por sua vez, era dedicado quase que exclusivamente aos Ancestrais, com fotografias e pertences de entes queridos que já não estão mais comigo, e objetos que representavam meu passado. Ali eram feitas oferendas mais cotidianas, de uma porção da minha comida, e era provavelmente o altar diante do qual eu mais fazia preces. Após meu casamento, quando vim para cá, por uma questão de espaço tanto quanto por mudança de filosofia, os três altares coexistem de forma mais indefinida, dentro de um mesmo móvel. É que eu fui concluindo que as três espirais do An Tríbhís Mhór são indissociáveis. Não é possível haver equilíbrio se o Mar, a Terra e o Céu não estiverem girando em torno de um mesmo eixo, harmonizados e em intrínseco contato. Embora tenhamos sim esses três grupos, Deuses, espíritos da terra e Ancestrais, os nossos Deuses constantemente rompem essa barreira.

O que estou dizendo é que muitos dos nossos Deuses são louvados como grandes Reis e Heróis do passado, como Ancestrais cujo sangue corre nas nossas veias, e a cujo clã pertencemos. E que muitos dos nossos Deuses, conforme é descrito no Livro das Invasões, com a chegada dos humanos, recolheram-se para as colinas, para o Outro Mundo, tornando-se espíritos da Natureza. Boann é Deusa e é Rio. Áine é Deusa e Rainha das Fadas. Nuada é Deus e Rei do passado. Oghma é Deus e grande Campeão de tempos idos. As barreiras não são definidas, mas sutis, incertas e suaves, como o Mar que lentamente vai subindo o banco de areia em ondas finas e transparentes, como a montanha envolta em nuvens, de tal modo que é inevitável que, ao caminhar por ela, nos sintamos em pleno Céu.

Os Três Reinos, para mim, não são estanques, definidos, divididos, organizados. Eles estão vivos. Eles se cruzam e se entrelaçam, alimentando um ao outro, abraçando-se como amantes, unindo-se… para gerar vida.

Terceiro dia: Terra e Natureza

Padrão

É chegada a hora de falar do tema Terra e Natureza, sobre o qual o bardo Wallace escreveu um texto perfeito, irretocável. Sinto uma enorme tentação de mandar vocês saírem daqui, clicarem no link no nome dele e irem ler lá! Assino embaixo de cada palavra, até porque esse foi um dos ensaios em português mais significativos a respeito da mitologia irlandesa que li em muito, muito tempo.

Mas, é claro, não é assim que funciona. Ao iniciar os 30 Dias Druídicos, comprometi-me a incluir no debate a minha voz. Portanto, tentarei aqui dizer algo que talvez acrescente a essa discussão… boa sorte para mim (:

Quando eu era criança, eu tinha uma árvore. Uma goiabeira, e o nome que lhe dei foi Suzana. Eu era muito pequena, mas me lembro de alguém prender para mim a parte de baixo de uma garrafa pet na ponta de um pau comprido, e eu ficar ali embaixo dela, às tontas, tentando colher goiabas com essa simples ferramenta. Também lembro das goiabas, amarelas por fora, e brancas por dentro. Eram um pouco mais azedas do que as goiabas rosas que meu pai trazia do mercado, mas eu abraçava Suzana depois de comer e agradecia muito, muito. Por algum motivo, comer a goiaba do mercado parecia banal, enquanto que comer a goiaba da Suzana… era como se eu tivesse ganho um presente.

Eu também trepava na Suzana, igual uma macaquinha, subindo daqui para ali, e dali para acolá, sempre achando um galho mais adiante para me agarrar com braços e pernas. Eu gostava de subir principalmente quando ficava amuada, quando meus pais me davam bronca, quando as coisas não iam como eu queria. Eu subia o máximo que conseguia, e ficava cantando para ela músicas da Clara Nunes. “Vou-me embora desse mundo de ilusão, quem me ver sorrir não há de me ver chorar…” aí a sensação ruim passava. Eu sentia o vento que sacudia os galhos, observava bem o céu e o sol dali do meu posto privilegiado, e todos os problemas desapareciam. Suzana transformava a zanga em alegria.

O tronco dela era liso, manchadinho em tons de bege, marrom e verde, e de vez em quando ela descascava inteirinha. Ela era esguia, longelínea, com folhas verdes um pouco ásperas. No meio do tronco tinha uma  bifurcação, perfeita para encostar o rosto quando eu a abraçava. Também era meu primeiro apoio de pé quando eu queria subir.  Suzana deu goiabas na minha infância inteira mas, na época em que atingi a adolescência, ela não deu mais. A casca também foi ficando mais áspera, a folhas mais manchadas, a impressão era que Suzana estava envelhecendo. Não entendo de botânica (talvez alguém possa me corrigir), mas minha teoria é que ela realmente ficou velha, parando de dar frutos do mesmo modo que, após certa idade, mulheres param de dar filhos. Mas eu ainda a amava. Na época, eu estava começando a estudar magia, e nos meus abraços eu a visualizava puxando de mim tudo o que me fazia mal, transformando com sua magia de árvore, e lançando tudo aquilo no chão e no espaço, transmutado, renovado. Eu amarrava fitas coloridas nela, para enfeitá-la, fazendo pedidos ou acordos. Certa vez, ao cortar um galho para fazer uma varinha, deixei-lhe uma grande mecha de cabelo.

Lembro de tantas coisas sobre ela, que poderia passar muitas e muitas linhas aqui, só falando de Suzana. Falando de como ela foi ficando cada vez mais áspera e gretada com o tempo, o modo como sua casca velha não mais caía para revelar o tronco liso e macio embaixo, e debaixo dessas cascas meio erguidas abrigavam-se os mais diversos animais. Em sua velhice, Suzana tornou-se uma senhora crespa, rugosa, abrigando ninhos de pássaros, lagartas, formigas e muitos outros insetos cujo nome desconheço. Lembro-me da última vez em que a vi, em setembro desse ano, e a olhei criticamente, percebendo de repente que Suzana não era mais uma árvore: Suzana era um planeta. Um mundo, um ecossistema em si mesma, alimentando e sustentando centenas de pequenos seres. Pensei que, para vários daqueles insetos andando em sua casca áspera, Suzana provavelmente era tudo o que eles conheciam. Eles nasciam e morriam ali, naquele tronco. Ela os sustentava, do mesmo modo que a mãe Terra nos sustenta.  Percebendo isso, a abracei mais uma vez, como quem abraça uma velha amiga, sentindo uma espécie meio irracional de orgulho.

Mas é isso o que ela é, uma velha amiga: foi Suzana que me ensinou, lá na minha infância de moleca, a respeitar a natureza. Era por amar Suzana que eu não arrancava folhinhas das plantas sem necessidade, como outras crianças faziam (eu costumava chamar-lhes a atenção quando faziam isso… e continuo fazendo isso até hoje. No segundo grau, eu era tão veemente nas minhas súplicas de que não machucassem as plantinhas que ganhei o apelido “Viva a Natureza”), e foi Suzana que me despertou a paixão por tudo aquilo o que nasce e cresce.

Quando falamos de Druidismo (e esse nome aqui torna-se pertinente inclusive devido à relação com “duir”, carvalho, que ele traz em sua raiz), inevitavelmente falamos em uma relação mais íntima com a Natureza e com a Terra em que vivemos, porque não há, em nossa religião, essa noção de que o homem e a natureza são coisas destacadas uma da outra, num esquema em que a segunda existe apenas para servir ao primeiro. Esse pensamento, essa “objetificação” da natureza, foi o que nos trouxe até aqui, uma situação tão crítica que até meu sobrinho, um garotinho de quatro anos, veio correndo pedir para fechar a bica porque “precisamos salvar o planeta”.

Ver o planeta como nossa casa. As águas e o solo como partes do nosso corpo, a serem protegidos pelo mesmo reflexo instintivo que nos faz erguer os braços diante do rosto quando algo vem em nossa direção.  Os animais como nossos irmãos.  As árvores como nossas amigas íntimas, insubstituíveis… deixar que a Natureza nos toque, nos ensine.  Compreender que tudo tem um papel, um valor, uma riqueza. Ver tudo o que existe com os olhos de uma criança que ama sua árvore como se ela fosse gente.