Décimo quarto dia: Meditação

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Existem dois lugares para onde sempre vou quando medito: o mar e a floresta. É que, quando não posso estar lá fisicamente, os visito na minha mente.

Quando escolho o caminho do mar, visualizo de olhos fechados o curso para sair do porto onde deixamos a lancha e, atravessando as pontes da Ilha do Governador, da Ilha do Fundão, e a Rio-Niterói, chego às amplas águas navegáveis da Baía de Guanabara. Me concentro no vento nos cabelos, no ronco do motor que faz vibrar os controles do barco sob meus dedos, no céu infinito, na faixa de terra que me acompanha à direita e à esquerda, com seu relevo singular. Normalmente, em minhas meditações, faço mais do que posso com minha humilde licença de arrais: sigo em frente até sair da Baía, cortando as altas ondas do Atlântico, avançando e avançando para o azul até que tudo seja apenas luz, vento e as muitas vozes do mar. Aos poucos encontro silêncio nesse amplo espaço, desligando o motor e permanecendo à deriva até que eu me torne parte da paisagem. Às vezes mergulho, e encontro o silêncio escuro de dentro da água. Normalmente só fico lá, balançando e balançando, observando o horizonte até que todos os pensamentos desapareçam.

Quando vou para a floresta, parto da entrada, subindo a pé a grande estrada de asfalto até achar uma trilha lateral que me chame. Caminho por ela, penetrando no emaranhado verde, meus pés fazendo ruídos ao partir galhos no chão ou amassar folhas e terra enlameada, os pássaros cantando e me acompanhando conforme subo. Normalmente, escuto o som murmurante de um rio que me acompanhe, e ao lado dele vou subindo e subindo, vendo a mata tornar-se densa, vendo a trilha serpentear, curvar-se, perder-se em meio aos arbustos e então surgir de novo. Minha mente acrescenta detalhes o tempo todo, as variadas cores da terra, do marrom fértil ao barro avermelhado, chegando a um tom amarelado claro na beira do rio. Acrescenta texturas diferentes de troncos, uns marrons, outros cinzentos, outros cor de ferrugem, uns lisos e outros ásperos, uns jovens e outros anciãos. Quando chego lá em cima, estamos a nascente do rio, a mata esparsa do topo da montanha, e o infinito céu. Lá eu permaneço em quietude até que meus membros tornam-se galhos, minha respiração o vento, e as águas da fonte tornam-se uma canção de paz.

Essas são minhas duas meditações preferidas para quando preciso aquietar a mente, e já mergulhei em uma ou na outra em momentos críticos, de grande ansiedade ou grande preocupação ou frustração.

Como sou ativa por natureza, agitada e inquieta, normalmente prefiro sair de verdade com o barco, ou subir de verdade a trilha da floresta. Mas é bom saber que ambos os lugares estão dentro de mim sempre que eu precisar. (:

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