Décimo segundo dia: Roda do Ano

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Solstício de Verão, 2010. Manhã de domingo.

Eu tinha acabado de tirar a carteira de arrais, e subi na lancha pela primeira vez como pilota. Girei a chave e o motor ligou de imediato, um ronco alto e constante. Empurrei o manete para a frente e o barco avançou contra águas sem ondas sem problemas, adernando apenas levemente. Diante de mim, a Baía de Guanabara. Sobre minha cabeça, um céu azul profundo, luminoso, coroado por um sol de rachar a cuca.

Navegamos a manhã inteira, e afinal lançamos âncora na beira das Ilhas Cagarras, próximas à entrada da Baía. A água, na qual mergulhei após fazer uma prece a Mananánn, era cristalina, gelada e muito salgada. O dia, risonho, tinha uma energia forte, positiva, quente, transbordante. No horizonte, o céu e o mar encontravam-se em uma linha muito azul…

Voltamos cedo pois era dia de ritual, Solstício de Verão. Meu pai me deixou no ponto de ônibus, de onde eu seguiria para a floresta. No caminho, a natureza inteira parecia em festa: a luz do sol criava tons quentes e fortes de verde, frutos maduros pendiam de árvores viçosas, tudo parecia cheio da mesma sensação que eu tinha tido no mar – um dia feito para a abundância e para a luz.

Cheguei para o ritual pilhadíssima, e fizeram piadas que eu tinha fumado alguma coisa. A sensação era de que tudo  – o mar, o sol, as árvores e a brisa – existiam para minha felicidade.

Essa é a sensação que eu tenho no verão aqui no Rio… uma sensação de que tudo é muito, tudo sobra, tudo abunda. Depois, conforme janeiro vai virando fevereiro e chega o Lughnasadh, o calor persiste, mas as chuvas tornam-se mais intensas. Em março, entrada do outono, o calor torna-se sensivelmente mais ameno (e eu tenho várias crises alérgicas, rs), e vai amenizando e amenizando até que, não mais que de repente, no Samhain eu me pego precisando botar meia-calça para sair à noite, porque só de saia dá friozinho nas pernas, e torna-se muito difícil sair para o mar porque a água fica gelada demais para mergulhar e os ventos ficam intensos, frios, pouco convidativos.

Em junho, na altura do Solstício, eu sinto frio de verdade, embora muito gaúcho ria da minha cara: é que pra carioca qualquer friozinho já faz tremer, e eu sou friorenta mesmo. Julho eu chego a ficar de casaco dentro de casa, um frio de bater queixo já que meu apartamento não recebe muito sol e acaba ficando sempre mais frio do que o ambiente lá fora. Mas no Imbolc já passou: o calor já vai dando as caras, mas a floresta ainda está cheia de galhos secos e nus espalhados pelo chão, com bem menos folhas ornamentando as árvores: uma cara mais cinzenta, com jeitão de inverno. Mas em setembro lá vem a primavera – e a segunda crise alérgica do ano! – e já dá pra navegar novamente, com ventos mais amenos, céus mais azuis. Com outubro chega Bealtaine, e o calor que se intensifica mais e mais. Em Bealtaine eu costumo receber um boost de energia, uma sensação de que coisas boas estão para chegar… é que entre junho e setembro eu fico meio borocoxô enfiada dentro de casa, meio sem vontade pra nada…

Eu não tenho as dúvidas que acometem tantos pagãos com relação à Roda do Ano. Para mim, os oito rituais possuem uma personalidade bem clara, sentida no céu, nas árvores, no mar e na temperatura, nos diferentes insetos que nos perseguem na floresta tentando chupar nosso sangue, nas minhas crises alérgicas e na minha disposição geral emocional. Há uma ordem e um sentido, algo tão real que não consigo ignorar.

Para mim, seguir a Roda Norte por questões tradicionais ou criar uma roda mista seria tão antinatural quanto ligar bem forte o ar condicionado até simular o frio do inverno, e fechar as cortinas para tapar o risonho céu azul de verão.

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  1. “Para mim, seguir a Roda Norte por questões tradicionais ou criar uma roda mista seria tão antinatural quanto ligar bem forte o ar condicionado até simular o frio do inverno, e fechar as cortinas para tapar o risonho céu azul de verão”
    :-DDD !!!

  2. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

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