Décimo primeiro dia: Ritual

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Novembro de 2011 – Bealtaine.

As mesmas duas frases vinham sendo repetidas – cantadas – há bastante tempo quando eu parei diante do mar. Ele era uma faixa escura contra um horizonte apenas um pouco menos escuro, rugindo sob um céu pontilhado de estrelas brilhantes. Aos meus pés, um pequeno barquinho de papel. Mas eu o visualizava imenso, um enorme navio de madeira a cortar as brumas maritmas, ondas levantando-se à sua passagem. Dentro dele, um homem alto, muito alto, e forte. Sua barriga o precedia, volumosa, sob uma túnica curta, que só o cobria até os quadris. Eu o vi chegando, aportando, conforme erguia o barquinho entre os dedos. Seja bem vindo.

O cântico continuava, monótono, repetitivo e significativo quando voltei para junto da fogueira, o barquinho aninhado entre as minhas mãos. Juntei minha voz a ele, repetindo e repetindo aquelas frases, sentindo-as entrar no sangue. Eu ainda não tinha me dado conta, mas dentro do barquinho havia uma pequena tira de papel, com apenas uma palavra: Samhain.

Oito rituais divididos entre oito pessoas. E eu fiquei responsável justamente por um dos que sempre mais me tocaram.

Samhain é o Ano Novo, o início da fase escura, o dia dos mortos, o dia da divinação e da transformação. Apesar de ainda estar longe – faltando meio ano para maio – nos dias que se seguiram fui completamente invadida por ideias, sensações e intuições.

Pesquisei bastante, e li todo tipo de informações a respeito do Samhain, desde curiosidades até práticas folclóricas, passando por sua significância na mitologia. Numa manhã, acordando para ir para o trabalho, o ritual me veio pronto: imagens, sons, texturas, sensações. Palavras. Cada passo, cada momento, cada item que eu precisaria. Assim que cheguei no trabalho o escrevi, aproveitando a memória ainda fresca.

Poesia no mundo das ações, conforme citado pelo Endovelicon. Conforme eu escrevia, num misto de empolgação e ansiedade, imaginei cada momento como quem antecipa um evento muito esperado. É que é muito importante: é no ritual que usamos símbolos para vivenciar aquilo o que antes era apenas uma ideia.

É no ritual que encontramos a nós mesmos.

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