Décimo dia: Espíritos da Natureza

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“Eu normalmente penso que eu poderia acreditar em mágica, pois eu tenho visto ou imaginado, em homens e mulheres, em casas, em objetos, em quase todos as visões e sons, um certo mal, uma certa feiura, que vem com a morte lenta através dos séculos de uma qualidade da mente que faz essa crença e suas evidências comuns pelo mundo.” — William Butler Yeats, “Magic”

As chuvas daquele ano foram tão fortes, com uma ventania tão intensa que a árvore do quintal caiu e bateu na casa, quebrando um pedação do telhado. No dia seguinte, meio incrédulas, passeamos pelo jardim nos dando conta do estrago. Conosco veio o gato, preto e branco, chamado Palhaço, cheirando os talos de plantas quebrados, curioso com as folhas espalhadas pelo chão. Do lado de fora era visível, além das telhas quebradas, uma enorme rachadura subindo pela parede: a frente da casa, construída sobre um brejal, estava afundando.

A árvore, uma aroeira, teve que ser arrancada dali. E, nos meses seguintes, não teve outro jeito: a casa teve que passar por uma reforma geral.

Uma nova fundação foi feita, bem como boa parte da frente da casa. E o jardim, por sua vez, foi completamente modificado: em número de canteiros, piso, decoração… e acabamos com duas meias luas e um longo retângulo cheios de terra fofa e marrom, fértil e cheia de húmus, mas sem uma folhinha sequer… aí, toca para a loja de jardinagem: escolher peônias, begônias, érikas, beijinhos, azaléias, cinerárias, samambaias, roseiras… mil cores e formas, para dar vida ao novo jardim.

A loja era ampla, cheia de canteiros e flores, fileiras e fileiras, metros e metros com espécies das mais  variadas. Enquanto caminhava ali entre os arbustos, escolhendo as flores pelas cores porque eu ainda não conhecia os nomes, via umas pessoinhas curiosas, que corriam no canto da minha visão, e nunca estavam lá quando eu olhava diretamente. Fui andando e andando, sem medo, até que achei um cantinho cheio de casinhas de barro… uma delas, a que mais me chamou a atenção, parecia um castelinho. Era circular e tinha algo semelhante a uma torre no alto… na mesma hora agarrei o castelinho de barro e fui insistir para mamãe comprar.

Foi a primeira coisa que botei no quintal. Coloquei num cantinho que achei bonito em um dos canteiros em forma de meia lua, e coloquei lá dentro uma pequena estatueta de duende de metal que eu tinha. A proporção era perfeita. Depois, plantamos tudo o que compramos, e o jardim ficou bem colorido, ainda que um tanto nu, com aquelas mudinhas tão espaçadas na terra marrom.

Naquela noite, fiz a primeira de muitas oferendas no que passei a chamar de “castelinho do duende”. Foi uma banana cortada ao meio e regada com mel. Eu cumprimentei os espíritos que eu senti presentes, e pedi que eles cuidassem do jardim, e cuidassem das plantinhas que tínhamos colocado ali com tanto carinho.

Dois dias depois as mudinhas continuavam igualmente pequenas, mas a terra não estava mais nua e marrom: os dois canteiros em forma de meia lua tinham se coberto de trevos de três folhas…

Ao longo dos anos estabeleci um relacionamento com os espíritos daquele jardim, um relacionamento de vizinhança. Fazia-lhes constantes oferendas e conversava com eles, um em particular.

Há uma relação dúbia no folclore irlandês em relação a esse tal “povo da colina”. Por um lado, são feitas oferendas de leite e mel para eles nos limites da sua moradia, como uma política de boa vizinhança, e diz-se que através deles pode-se conseguir muitas coisas (conselhos, conhecimentos, um pote de ouro). Por outro, são tidos como seres cuja noção de bem e mal é duvidosa, traiçoeiros, vingativos, pouco confiáveis, contra os quais é necessário pôr uma proteção mágica na porta ou murmurar determinada prece.

Eu particularmente nunca entrei em contato com o lado mais “escuro” dessas entidades naturais, embora tenha lido a respeito, ouvido histórias… mas a meu ver a própria natureza não possui bondade nem maldade: ela simplesmente é, com seu ciclo eterno de criações e destruições, em que algo sempre precisa terminar para que outro algo seja gerado.

De mais a mais, do mesmo modo que nossos Deuses possuem personalidades, características e atribuições diversas, o mesmo pode ser dito do povo da colina: cada um terá o seu jeito de ser, sua história e suas preferências e, se ficarmos atentos, os conheceremos muito bem – do mesmo jeitinho que conhecemos nossos vizinhos mais próximos.

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