Sétimo dia: Prática Diária

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Éirím inniu agus iarraim beannachtaí ar mo dhéithe,
go raibh mé cróga mar tharbh,
go raibh mé eagnaí mar bhradán,
go raibh mé caoin mar uan.
Beannacht ar mo mhuinitir,
beannacht ar mo chairde,
agus beannacht ar mo chuid oibre.

Uma coisa que aprendi desde criança é que religião não é algo que você tem, é algo que você vivencia. Meus pais são umbandistas, pai e mãe de santo, e possuem um centro próprio. Embora sempre tenham me dado muita liberdade para crer e seguir o que eu achasse melhor, eles sempre incutiram em mim a noção de que religião é algo a ser levado a sério. Com eles não há meias medidas, não-praticantismo ou deixar por fazer: a dedicação deles sempre foi 100%, nem um dedinho a menos.

Cresci vendo-os ir ao centro várias vezes na semana, realizando uma série de rituais pequenos, mantendo um guardião na porta lá de casa com a vela sempre acesa, cantando cantigas enquanto realizavam atividades cotidianas e decorando a casa com imagens dos Orixás. Eu tinha até um certo ciúme do centro, aquele meu rival, para onde eles iam todo santo sábado, nunca reservando um que fosse para me levar ao cinema. E criança aprende através do exemplo…

Sim, no Druidismo só temos 8 rituais no ano. Pouquíssimos, se comparados à quantidade de feriados cristãos, e quase inexistentes se comparados à quantidade de rituais da Umbanda. Mas limitar toda a sua prática religiosa a menos de um ritual por mês é o equivalente a dizer que você é católico só nos batizados e missas de sétimo dia. E não, nem todo católico é assim, embora tenhamos uma quantidade meio surreal de não-praticantes nesse país.

Trabalhei dois anos em uma escola católica… a prática lá era intensa, com missa duas vezes por semana, preces todos os dias várias vezes ao dia, e um padre batendo na porta no meio da aula perguntando se algum aluno queria se confessar… o que prova que a vida religiosa católica pode ser muito mais intensa do que eu imaginaria observando a maioria dos católicos que conheci a vida inteira.

O Druidismo não é diferente. Para os Celtas não havia essa diferença que temos, um abismo entre sagrado e profano, sendo o sagrado aquilo o que vivemos dentro da igreja, do templo, da sinagoga, do centro ou do ritual, e o profano todo o resto. Cada ato cotidiano, cada passo, cada gesto, cada atividade era permeada de sagrado. Havia preces para o despertar, para o adormecer, para o trabalho, para… para tudo.

Na verdade eu vejo essa prática diária, dentro do Druidismo, mais como uma postura, um modo de encarar seu dia-a-dia, do que como atos ritualísticos específicos. Eu realizo minhas oferendas e faço minhas preces com frequência, mas não é isso que considero, por si só, como minha prática diária. Minha prática diária está no caminho para o trabalho, nas minhas conversas com meus Deuses, no momento que eu tiro para observar a luz do sol incidindo sobre a lateral de um morro, nas coisas que escrevo, nas percepções que tenho.

É claro que ter um altar doméstico, conhecer preces específicas (Carmina Gadelica tem muitas dessas), realizar oferendas com alguma frequência, tudo isso ajuda. Mas, na minha visão, o que verdadeiramente constitui vivenciar uma religião é mais uma mudança interna, de perspectiva, que, ao invés de dar à fé um momento ou mais por dia, inclui a fé em todos os momentos.

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