Sexto dia: Espaços Sagrados

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O portão é grandioso, verde, de ferro, e muito bem guardado por homens atentos. Ao ver nossa chegada, esses guardiões correm para abrir as portas, tomando o cuidado de contar quantos somos enquanto nos cumprimentam. Passado o portão, o caminho em nossa frente é ascendente, íngreme e serpenteante. Ele é antigo, porém bem conservado, frequentado por muitos, ladeado por árvores e arbustos tanto na direita como na esquerda. Subimos, apreciando outros visitantes que também sobem, alguns devagar, outros apressados, uns solitários, outros em pequenos grupos amigáveis.

De cada lado da estradinha é possível ver que estamos passando pelo coração de uma grande floresta verde. Contudo, em alguns pontos do trajeto, o caminho abre-se em áreas abertas e agradáveis de um lado ou do outro, onde famílias comungam com a natureza sob o caloroso sol de verão. É verão. O ar está cheio de pequenos mosquitos escuros, e uns maiores, de corpo amarelo, cujas asas zumbem alto. Borboletas cruzam nosso caminho, amarelas e dançando ao vento. Nas árvores, lá no alto, nos acompanham vários pequenos saguis, curiosos, interessados. Em determinado ponto do caminho, nos deparamos com uma enorme cachoeira à direita da estradinha. As águas, espumosas, brancas, rugem com uma força inesperada, respingando rochas imensas.

Continuamos subindo, conversando à vontade sobre o assunto que nos vem à mente, como apenas amigos de longa data conseguem fazer. Um de nós puxa uma tin whistle, e começa a tocar uma melodia alegre, condizente com o sol que rompe as nuvens lá no alto para nos tocar. Subimos e subimos, acompanhando a estradinha conforme ela vira e serpenteia, cada vez mais para o alto, mergulhando no coração daquela floresta nas alturas.

Afinal, viramos apenas mais uma curva, e chegamos ao nosso destino. Um lago tranquilo nos recebe, suas águas escuras parecendo misteriosas sob o céu azul de verão. À direita dele, um pequeno caminho tosco, com degraus feitos de madeira e terra, batidos e gastos. Subimos por ali, ainda conversando muito à vontade: estamos em casa. Árvores esparsas nos recebem numa clareira, um espaço amplo de terra, coberto de tufos de grama e pontilhado de pequenas árvores solitárias. Enquanto entramos, presenciando a corrida de uma cutia desconfiada ao ouvir nossas vozes, percebemos que aquele não é um lugar qualquer. Essa clareira, ampla, comum a uma primeira olhada, é um espaço diferente. No centro desse espaço, está uma grande estrutura de tijolos feita pelo homem, antiga e gasta, porém acolhedora. Parece-se com uma casa, só que não tem paredes, e a terra invadiu seu chão duro e liso, fazendo com que a estrutura parecesse realmente parte da natureza do lugar.

À esquerda dessa estrutura, está ela. Uma árvore gigantesca, ancestral. Imensa, de tronco grosso e áspero, com galhos erguidos para o céu em uma altura vertiginosa. Sua casca, de uma madeira avermelhada, é raiada de prateado e dourado, brilhando sob o sol. A seus pés, raízes gigantescas projetam-se do solo criando algo semelhante a uma cama, onde centenas de folhas secas, bem vermelhas, acumularam-se. De longe é perceptível que aquela árvore tem algo de especial. Uma força magnética, uma energia, uma personalidade. Ela estava ali muito antes de todas as outras, muito antes de nós, muito antes da estrutura de tijolos. Ela estará ali quando todos nós já nos tivermos ido, é a impressão clara que temos só de olhá-la. A cumprimentamos, porque é impossível não fazê-lo, e seguimos em frente, para a ponta da clareira.

Lá está uma pequena mesa de pedra, semelhante a um banco, apenas um pé de cada lado segurando uma superfície lisa, horizontal. Mas mesmo percebendo que aquela mesa é aparentemente comum, sem nada de especial, dá para sentir alguma energia diferente ali, naquela mesa e no espaço imediatamente diante dela. De alguma forma, mesmo nua daquele jeito, na ponta de uma clareira, aquela mesa… parece um altar.

Ela é o nosso altar. E aquele é o nosso espaço sagrado.

Todos no nosso clã reconhecerão não só a descrição do lugar, como o formato da narrativa. É a minha versão da que a Sisi fez no último solstício. E essa descrição, obviamente, é a do lugar onde fazemos a maior parte dos nossos ritos, um lugar que, se já não era especial por si mesmo, certamente foi tornado especial pelas energias com as quais entramos em contato todas as vezes em que estamos lá. Ao pensar em “espaço sagrado” foi aquele lugar o primeiro que me veio em mente – não Newgrange, não Emain Macha, não Tara, não o poço de Bríd em Kildare. O segundo foi o meu altar, lugar onde realizo minhas oferendas, acendo minhas velas e faço minhas preces.

A verdade é que não há um único lugar no mundo que não possua um potencial para o sagrado. A natureza é divina, e nós somos parte dela, com tudo o que construímos. O que torna um lugar sagrado é o modo como o olhamos. É literalmente o mesmo caso que com o belo – está nos olhos do observador.

É claro que um dia (espero que em breve!) quero visitar Emain Macha, Newgrange, Kildare, a nascente do Boyne, a Lia Fáil… e tenho certeza que, conforme descreveram meus sortudos amigos que lá já estiveram, sentirei toda a energia e a sacralidade do lugar. Contudo… é como dizia Dorothy, com sua sabedoria de menina: não há lugar como o nosso lar.

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  1. Os monstros alados, comedores de carne não podiam faltar, claro! rsrsrsrsrs
    Desde a primeira sentença, reconheci o local, Laise.
    Você ainda não estava no clã, mas já realizamos muitos ritos aos pés daquela árvore majestosa!!!

    Ótimo post!

  2. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

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