Quarto dia: Três Reinos

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“Três coisas das quais nunca se desviar: seus juramentos, seus Deuses, a Verdade”
— Tríades celtas tradicionais.

Uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar os Celtas (no ano 2000, creio eu, foi a primeira vez que lancei a expressão “Celtic gods” na busca do Yahoo, e não foi muito depois que li pela primeira vez a respeito das tríades) foi justamente o conceito de que tudo, o universo, a realidade e a existência, é tríplice. O maior símbolo disso é o An Tríbhís Mhór, o Grande Triskele, aquele símbolo de três espirais unidas no centro, que encontramos muito na arte de La Tène, e nos manuscritos irlandeses medievais.

O número três está presente em muitas coisas, não só nas tríades ou na arte: está na fé. Está em Deusas de três faces, como Bríd ou as três Morríghans. Está em presentes triplos, desejos triplos ou chances triplas que heróis, reis ou donzelas encantadas requisitam ou oferecem. Está nos três grupos invisíveis que honramos, Deuses, espíritos da terra e Ancestrais. E está na crença dos Três Reinos:  Céu, Terra e Mar.

É estranho, porque de 2000 para cá já são mais de onze anos, e nesse período de tempo li uma quantidade tão grande de textos, ensaios, livros, resumos, teses e artigos… mas me lembro completamente de quando e como foi que li a respeito dos Três Reinos pela primeira vez: foi numa mailing list chamada Creideamh, administrada por Robert Kaucher, o americano fundador da Ordem Druídica do Brasil. Eu achei a Creideamh tarde, quando ela já estava bem perto de morrer, e minha atividade lá foi quase que completamente como lurker. Mas logo que a descobri, em meados de 2004, li o arquivo de e-mails por completo, num trabalho hercúleo, salvando dezenas de arquivos *.txt, o que não só serviu como uma fonte preciosa de aprendizado, como também foi me fazendo me apaixonar cada vez mais por este caminho.

O conceito Três Reinos foi uma daquelas coisas que eu li e imediatamente pensei:  faz sentido! É a noção de que o mundo é composto por esses três espaços: o Céu, que está sobre nossas cabeças, nos ilumina e nos governa, a Terra, que está firme sob nossos pés, e nos alimenta e define, e o Mar, que permeia o mundo, e nos nutre e guia. Os três em equilíbrio são o que mantem a vida em harmonia, e a nossa função no mundo é justamente nos harmonizarmos com eles.

Há uma meditação que eu faço com alguma frequência, em particular quando preciso me centrar ou entrar em um estado de consciência mais propício para atividades religiosas, que consiste em imaginar a mim mesma como uma árvore. É muito gradual: primeiro vou sentindo minha pele endurecer, mudar de textura, e meu tronco alongar-se. Meus braços tornam-se galhos e ramos, e eu sinto esses ramos alongarem-se, afinarem-se nas pontas, bifurcarem-se e abrirem pequenas folhas verdes em forma de lâmina. Meus galhos entrelaçam-se e entrecruzam-se, estendendo-se na direção do Céu, para sentir a luz e o calor do sol, e como que beber daquela imensidão divina. Meus pés também tornam-se mais longos e ondulantes, cruzando-se e aprofundando-se, mergulhando na terra macia e cavando, cavando, encontrando afinal o frio e a umidade escura de um lençol d’água. E com minhas entrelaçadas e grossas raízes eu bebo dessa água, tirando dela tudo o que precisarei para crescer forte. O frio que sobe pelas pernas encontra-se no meu peito com o calor que desce pelos braços, criando um equilíbrio fundamental. Sinto minhas três partes com clareza: os galhos que buscam o Céu, as raízes que mergulham até encontrar um pouco de Mar, e o tronco, definido e estável, existindo na Terra e conectando os Três Mundos. Depois, quando aos poucos vou voltando a sentir minha pele, meus braços e minhas pernas, visualizando-me novamente como pessoa, sempre retorno energizada e feliz, e acima de tudo concentrada e pronta para realizar o que for necessário naquele momento.

Antes, quando eu morava com os meus pais, também mantinha três altares, um para cada Reino. O do Céu era dedicado a alguns Deuses, e lá normalmente eram feitas as oferendas dos 8 rituais do ano e acendidas velas e icensos. O da Terra era dedicado a outros Deuses e também aos espíritos, e eu costumava enfeitá-lo com pequenas estatuetas de fadas e gnomos, e flores e frutos secos, e lá eu fazia outros tipos de oferendas, no geral frutas que depois eram depositadas no jardim. O do Mar, por sua vez, era dedicado quase que exclusivamente aos Ancestrais, com fotografias e pertences de entes queridos que já não estão mais comigo, e objetos que representavam meu passado. Ali eram feitas oferendas mais cotidianas, de uma porção da minha comida, e era provavelmente o altar diante do qual eu mais fazia preces. Após meu casamento, quando vim para cá, por uma questão de espaço tanto quanto por mudança de filosofia, os três altares coexistem de forma mais indefinida, dentro de um mesmo móvel. É que eu fui concluindo que as três espirais do An Tríbhís Mhór são indissociáveis. Não é possível haver equilíbrio se o Mar, a Terra e o Céu não estiverem girando em torno de um mesmo eixo, harmonizados e em intrínseco contato. Embora tenhamos sim esses três grupos, Deuses, espíritos da terra e Ancestrais, os nossos Deuses constantemente rompem essa barreira.

O que estou dizendo é que muitos dos nossos Deuses são louvados como grandes Reis e Heróis do passado, como Ancestrais cujo sangue corre nas nossas veias, e a cujo clã pertencemos. E que muitos dos nossos Deuses, conforme é descrito no Livro das Invasões, com a chegada dos humanos, recolheram-se para as colinas, para o Outro Mundo, tornando-se espíritos da Natureza. Boann é Deusa e é Rio. Áine é Deusa e Rainha das Fadas. Nuada é Deus e Rei do passado. Oghma é Deus e grande Campeão de tempos idos. As barreiras não são definidas, mas sutis, incertas e suaves, como o Mar que lentamente vai subindo o banco de areia em ondas finas e transparentes, como a montanha envolta em nuvens, de tal modo que é inevitável que, ao caminhar por ela, nos sintamos em pleno Céu.

Os Três Reinos, para mim, não são estanques, definidos, divididos, organizados. Eles estão vivos. Eles se cruzam e se entrelaçam, alimentando um ao outro, abraçando-se como amantes, unindo-se… para gerar vida.

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  1. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

  2. Eu tinha esquecido dessa questão mítica do 3…
    Um post fenomenal, como sempre!

    Lembra que usei uma meditação parecida com essa num Festival na casa da Simone?

    • Ok, fiquei toda boba com esse “fenomenal” xD

      E lembro vagamente… não sei explicar bem porque, mas minha memória é muito ruim pra coisas que acontecem nos rituais… até por isso queria escrever e registrar no dia, enquanto ainda tá fresco na memória. Por algum motivo, as coisas somem depois de um tempo.

      Mas lembro vagamente de estar na casa da Simone e pensar na conexão com o solo apesar de estar andares acima do chão de verdade…

  3. Extato!!!! La, eu tenho uma história de um aluno do ano passado q vc ia se encantar. Quando a gente se encontrar me ajude a lembrar. O garoto é um gênio, e confesso, q nunca vi ninguém (muito menos com a idade dele) possuir um esclarecimento religioso tão grande qto ele.

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