Terceiro dia: Terra e Natureza

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É chegada a hora de falar do tema Terra e Natureza, sobre o qual o bardo Wallace escreveu um texto perfeito, irretocável. Sinto uma enorme tentação de mandar vocês saírem daqui, clicarem no link no nome dele e irem ler lá! Assino embaixo de cada palavra, até porque esse foi um dos ensaios em português mais significativos a respeito da mitologia irlandesa que li em muito, muito tempo.

Mas, é claro, não é assim que funciona. Ao iniciar os 30 Dias Druídicos, comprometi-me a incluir no debate a minha voz. Portanto, tentarei aqui dizer algo que talvez acrescente a essa discussão… boa sorte para mim (:

Quando eu era criança, eu tinha uma árvore. Uma goiabeira, e o nome que lhe dei foi Suzana. Eu era muito pequena, mas me lembro de alguém prender para mim a parte de baixo de uma garrafa pet na ponta de um pau comprido, e eu ficar ali embaixo dela, às tontas, tentando colher goiabas com essa simples ferramenta. Também lembro das goiabas, amarelas por fora, e brancas por dentro. Eram um pouco mais azedas do que as goiabas rosas que meu pai trazia do mercado, mas eu abraçava Suzana depois de comer e agradecia muito, muito. Por algum motivo, comer a goiaba do mercado parecia banal, enquanto que comer a goiaba da Suzana… era como se eu tivesse ganho um presente.

Eu também trepava na Suzana, igual uma macaquinha, subindo daqui para ali, e dali para acolá, sempre achando um galho mais adiante para me agarrar com braços e pernas. Eu gostava de subir principalmente quando ficava amuada, quando meus pais me davam bronca, quando as coisas não iam como eu queria. Eu subia o máximo que conseguia, e ficava cantando para ela músicas da Clara Nunes. “Vou-me embora desse mundo de ilusão, quem me ver sorrir não há de me ver chorar…” aí a sensação ruim passava. Eu sentia o vento que sacudia os galhos, observava bem o céu e o sol dali do meu posto privilegiado, e todos os problemas desapareciam. Suzana transformava a zanga em alegria.

O tronco dela era liso, manchadinho em tons de bege, marrom e verde, e de vez em quando ela descascava inteirinha. Ela era esguia, longelínea, com folhas verdes um pouco ásperas. No meio do tronco tinha uma  bifurcação, perfeita para encostar o rosto quando eu a abraçava. Também era meu primeiro apoio de pé quando eu queria subir.  Suzana deu goiabas na minha infância inteira mas, na época em que atingi a adolescência, ela não deu mais. A casca também foi ficando mais áspera, a folhas mais manchadas, a impressão era que Suzana estava envelhecendo. Não entendo de botânica (talvez alguém possa me corrigir), mas minha teoria é que ela realmente ficou velha, parando de dar frutos do mesmo modo que, após certa idade, mulheres param de dar filhos. Mas eu ainda a amava. Na época, eu estava começando a estudar magia, e nos meus abraços eu a visualizava puxando de mim tudo o que me fazia mal, transformando com sua magia de árvore, e lançando tudo aquilo no chão e no espaço, transmutado, renovado. Eu amarrava fitas coloridas nela, para enfeitá-la, fazendo pedidos ou acordos. Certa vez, ao cortar um galho para fazer uma varinha, deixei-lhe uma grande mecha de cabelo.

Lembro de tantas coisas sobre ela, que poderia passar muitas e muitas linhas aqui, só falando de Suzana. Falando de como ela foi ficando cada vez mais áspera e gretada com o tempo, o modo como sua casca velha não mais caía para revelar o tronco liso e macio embaixo, e debaixo dessas cascas meio erguidas abrigavam-se os mais diversos animais. Em sua velhice, Suzana tornou-se uma senhora crespa, rugosa, abrigando ninhos de pássaros, lagartas, formigas e muitos outros insetos cujo nome desconheço. Lembro-me da última vez em que a vi, em setembro desse ano, e a olhei criticamente, percebendo de repente que Suzana não era mais uma árvore: Suzana era um planeta. Um mundo, um ecossistema em si mesma, alimentando e sustentando centenas de pequenos seres. Pensei que, para vários daqueles insetos andando em sua casca áspera, Suzana provavelmente era tudo o que eles conheciam. Eles nasciam e morriam ali, naquele tronco. Ela os sustentava, do mesmo modo que a mãe Terra nos sustenta.  Percebendo isso, a abracei mais uma vez, como quem abraça uma velha amiga, sentindo uma espécie meio irracional de orgulho.

Mas é isso o que ela é, uma velha amiga: foi Suzana que me ensinou, lá na minha infância de moleca, a respeitar a natureza. Era por amar Suzana que eu não arrancava folhinhas das plantas sem necessidade, como outras crianças faziam (eu costumava chamar-lhes a atenção quando faziam isso… e continuo fazendo isso até hoje. No segundo grau, eu era tão veemente nas minhas súplicas de que não machucassem as plantinhas que ganhei o apelido “Viva a Natureza”), e foi Suzana que me despertou a paixão por tudo aquilo o que nasce e cresce.

Quando falamos de Druidismo (e esse nome aqui torna-se pertinente inclusive devido à relação com “duir”, carvalho, que ele traz em sua raiz), inevitavelmente falamos em uma relação mais íntima com a Natureza e com a Terra em que vivemos, porque não há, em nossa religião, essa noção de que o homem e a natureza são coisas destacadas uma da outra, num esquema em que a segunda existe apenas para servir ao primeiro. Esse pensamento, essa “objetificação” da natureza, foi o que nos trouxe até aqui, uma situação tão crítica que até meu sobrinho, um garotinho de quatro anos, veio correndo pedir para fechar a bica porque “precisamos salvar o planeta”.

Ver o planeta como nossa casa. As águas e o solo como partes do nosso corpo, a serem protegidos pelo mesmo reflexo instintivo que nos faz erguer os braços diante do rosto quando algo vem em nossa direção.  Os animais como nossos irmãos.  As árvores como nossas amigas íntimas, insubstituíveis… deixar que a Natureza nos toque, nos ensine.  Compreender que tudo tem um papel, um valor, uma riqueza. Ver tudo o que existe com os olhos de uma criança que ama sua árvore como se ela fosse gente.

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  1. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

  2. Sabe que eu me lembrei que no meu quintal tb tinha uma goiabeira, que de início eu subia sempre, mas com o tempo fui a deixando de lado… mas que sempre que lembro da minha antiga casa, é uma das primeiras coisas que me lembro.
    Ótimo post, Laise! :)

    • Goiabeiras são divinas! *o* Ainda tenho como visitar a Suzana, mas não com a frequência com que gostaria. Só não podemos esquecer o que essas nossas amigas de madeira nos ensinaram, né? ^^

      E obrigada .-. fiquei super insegura!

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