Segundo dia: Cosmologia

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Eu dou aula em um curso de inglês, em um esquema de turnos, e o meu é o turno da manhã. Minhas aulas começam às 7 ou 8 da manhã, de segunda a quinta e aos sábados (às sextas eu dou aula à noite). É um trabalho que eu gosto muito, esse de ser professora, porque eu sinto que o que faço realmente faz a diferença, é significativo, traz um bem permanente a várias pessoas, meus alunos, que não só querem como precisam do inglês para suas vidas pessoais ou profissionais. Saber que minha função no mundo tem essas atribuições me faz feliz de verdade, é uma sensação de satisfação pessoal indescritível. Por isso, já levanto motivada e feliz, agradecendo aos Deuses por mais um dia.

E levanto muito cedo. Mais cedo do que preciso, porque gosto de chegar com antecedência. É que o caminho é maravilhoso. Para chegar no trabalho, vou pelo Alto da Boa Vista, uma estradinha serpenteante que sobe, desce, volteia, atravessando o coração da Floresta da Tijuca. Vou ali no ônibus, às vezes ouvindo música e às vezes em silêncio, o nariz grudado no vidro da janela, observando o emaranhado de árvores dos dois lados da estrada, os quatis que brincam nos seus galhos, borboletas coloridas levadas pelo vento, pássaros atarefados, pequenas cachoeiras escondidas na ribanceira. Às vezes o céu está azul e límpido, às vezes chove e as folhas sacodem-se agitadas, frenéticas, um cheiro bom de terra úmida enchendo o ar. Certa vez, surgiu no meio do caminho uma neblina densíssima, parecia que eu tinha entrado numa nuvem. E quando chego no lugar onde fica meu trabalho, sou recebida por uma ampla lagoa, à sombra da imponente Pedra da Gávea. Normalmente caminho até o curso observando os reflexos do sol na superfície da lagoa, ou as sombras que se projetam nas ondulações da rocha acima. Mesmo quando chove e eu tenho que usar guarda-chuva, fico feliz ao ver as ondas que surgem na superfície, umas sobre as outras, em círculos concêntricos.

Para mim, todo esse caminho de manhã cedo é um momento de meditação, de comunhão com os Deuses e o mundo. É uma hora de viagem que me pertence, é só minha. É quando tenho minhas melhores ideias e melhor ouço as vozes dos espíritos do mundo. É que para mim, os Deuses estão nas pequenas coisas. Estão nas folhas que tremulam na chuva e nos saguis que pulam de galho em galho. Estão na luz ondulada que cobre a lagoa e em cada sombra do grande rochedo. Também estão no meu trabalho, nas pessoas que encontro, no gato cuja orelha coço de passagem enquanto ando para o ponto de ônibus. Cada momento é um momento de comunhão divina.

E isso me completa. Há algum tempo, quando começou o horário de verão, eu saía do meu prédio e via a noite fechada, o céu cheio de estrelas. Eu reconhecia Órion com seu cinturão de três estrelas, e o brilho mais forte de Vênus, conforme aprendi a identificar ainda na infância. Via a floresta acordar aos poucos, a luz a princípio tímida que tocava as cascas das árvores filtrada pela massa de folhagens. Mas conforme aproximou-se o solstício, o sol começou a nascer cada vez mais cedo, até que mais recentemente eu acordava já com a luz do dia invadindo o quarto.

Ontem foi um dia desses. Dia seguinte ao solstício, um dia quente de verão sem nuvens num céu de profundo azul. Era o meu último dia no trabalho esse ano, despedidas carinhosas, promessas de que 2012 será melhor. O sol estava tão quente que era até difícil ficar sentada na minha salinha, eu precisava ver mundo… e, como ainda por cima trabalho pertinho da praia, não resisti: saí para comprar um biquini. Visitei o mar como quem realiza um ritual sagrado, abraçando as ondas, conversando com Manannán. Senti aquela água abençoadamente gelada penetrar cada poro, levando com ela qualquer tristeza, qualquer arrependimento, qualquer dor. Ergui os olhos para o céu enquanto o sol se punha sobre o mar (tarde, abençoadamente tarde), e murmurei para os espíritos que sempre me acompanham: “Hoje, eu sou muito, muito feliz.”

É isso que entendo por cosmologia: se cosmologia é o estudo do mundo (do grego, cosmo: mundo, logos: estudo), então tudo o que é preciso fazer para exercê-la é abrir os olhos e ver. Todos os dias, religiosamente, eu vejo, ouço, provo, sinto, tudo o que é possível sentir nesse mundo em que vivo. Para mim, isso é o druídico a se fazer – observar o mundo e os ciclos, perceber nosso papel neles, mergulhar no mistério, e romper a superfície como quem emerge do mar para o irresistível céu azul de verão.

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  1. Pingback: 30 Dias Druídicos « Sídhe

  2. Adorei, a chara.
    Realmente basta querer abrir os olhos e ver, VER o que o mundo nos mostra todos os dias… nele encontramos todas as respostas para as nossas perguntas mais profundas.

    • É. Existem duas formas de deixar passar essas respostas: uma é mergulhando na rotina de forma tão profunda e destruidora que os olhos se fecham por cansaço ou falta de costume… outra é olhando tanto para o espírito, tanto para o espírito, preocupando-se tanto com o que nos acontecerá após a morte… que os olhos cegam-se para o que é palpável, real… e, certamente, mágico.

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